A história do anglicanismo

Como nos lembra a Professora Vera Lúcia Simões de Oliveira, boa parte da história do Anglicanismo coincide com a História da Igreja da Inglaterra que é decorrente do somatório de experiências religiosas de vários matizes, “com características bem específicas e, também, com a acomodação cultural de diferentes tradições cristãs”. Porém, ao longo de sua evolução histórica, o Anglicanismo tornou-se, não mais um sinônimo de “Igreja ou religião dos ingleses”, pois diversos aspectos nesse processo evolutivo vem sendo agregados, mas sim, uma igreja universal. Em que pese o Anglicanismo, ao longo de sua história, apresentar-se na forma de “comunhão” ou de “irmandade“, reunindo igrejas ou províncias autônomas que mantém uma identidade doutrinária comum, conseguiu se adaptar a diversas variantes culturais.

As raízes da Igreja Anglicana estão na primitiva Igreja Celta, igreja cristã que chegou à Inglaterra por volta do final do segundo século cristão e início do terceiro, desenvolvendo-se de maneira local e independente. 

Sabe-se de que já em 314, no concílio em Arles, na Gália (atual França), 3 bispos da Igreja Celta Britânica lá estiveram presentes. No concílio de Nicéia, em 325, apesar de não ter contado com a presença física de bispos ingleses, houve, conforme atesta Atanásio, a sua posterior adesão à fé nicena. Em 359, em Rimini, novamente estiveram presentes alguns bispos britânicos, destacando-se, inclusive, por seu ascetismo e sua postura absolutamente desapegada às coisas materiais. Tais fatos mostram que no século IV já havia certa organização na Igreja Celta Britânica, já apresentando um perfil bem característico.

Diversos estudiosos têm evidenciado o violento processo de cristianização na religião que hoje é o Reino Unido, contrapondo-se às primitivas práticas dos celtas, não deixando espaço para a vivência das antigas tradições pagãs. Porém, de uma forma geral, a intolerância era uma marca daqueles tempos, e o cristianismo, com seu processo de conversão, não fugia dessa característica cultural.

O Cristianismo Celta Irlandês tornou-se uma força permanente nas Ilhas Britânicas, com enorme ação missionária, partindo da fundação de mosteiros, irradiadores da fé cristã, diferentemente do tradicional sistema diocesano europeu.

No final do século V, a Irlanda já desempenhava um importante papel na história do Cristianismo nas Ilhas Britânicas, com algumas características bem especiais, baseando-se em seus mosteiros, com diferente estrutura administrativa ao serem comparados com os demais da Europa Continental, especialmente nas peculiares relações entre o abade e o bispo. Na Irlanda, diferentemente do sistema europeu e romano, o abade governava soberanamente o seu mosteiro e a região em que estava inserido, conforme o modelo céltico, e até possuía, entre os membros do corpo dos monges, alguns bispos, que estavam, administrativamente, sob as suas ordens. Assim, a organização, as finanças e as terras da Igreja eram governadas pelos abades e não pelos bispos, os quais não possuíam qualquer jurisdição territorial (diocese). Dessa forma, os mosteiros destacaram-se como o elemento mais importante na vida da primitiva Igreja Irlandesa.

Em que pese o destaque de alguns mosteiros da região como centros de saber, de evangelização e de produção literária, merece destaque a realidade apresentada pela já citada Professora Oliveira:

É marcante na vida religiosa celta-cristã a valorização da natureza, tanto na liturgia, como na vivência diária da penitência, do trabalho e do culto, como resultado da sua experiência cultural. Os templos, seja no mosteiro ou, até, em regiões isoladas, geralmente eram pequenos, não porque, necessariamente as congregações também o fossem, mas, porque a adoração também era feita, muitas vezes, ao ar livre. Muitos locais de adoração eram ao ar livre, sem nenhuma construção, a não ser a presença das famosas cruzes de pedra, emolduradas, em suas hastes, pela figura do círculo, que simbolizava a amplitude da obra da criação de Deus. A cruz e o círculo são testemunhas vivas, até hoje, dessa ardente espiritualidade, porque muitas delas sobreviveram à ação do tempo e, ainda em nossos dias, algumas são santuários de oração e peregrinação. Enfim, a prática religiosa celta não ficava confinada dentro das paredes dos muitos mosteiros (como era comum na Igreja romanizada), mas, a partir deles, a experiência era a de ir para fora, para o mundo, para pregar o Evangelho.

Pelo exposto, merece destaque as características básicas da Igreja Celta com sua pobreza de recursos (simples e rudes construções), seu ascetismo na sua forma de compreender a vida cristã, sua prática orante contemplativa, essencialmente mística, seu fervor ao estudo das Escrituras, muito por influência da Igreja Oriental e, ainda, pela sua destacada valorização da natureza. O círculo e a cruz acompanhavam a vida da Igreja Celta, sinal até hoje identificado.

No século VI, a Irlanda continuava a viver um florescente cristianismo celta. No entanto, o isolamento das Ilhas Britânicas do resto do Continente Europeu e a dominação anglo-saxônica, no leste das mesmas, muito contribuiu para que a Igreja Celta Irlandesa e Escocesa desenvolvesse alguns procedimentos diferentes dos da Igreja Cristã Ocidental, liderada por Roma. Apesar disso, pode-se afirmar que a Igreja Celta nunca foi, em essência doutrinal, diferente da Igreja de Roma, ou seja, essencialmente uma igreja cristã.

Ao final do século VI, Agostinho, um monge italiano, prior de um mosteiro em Roma, foi escolhido pelo papa de então, Gregório, para desenvolver a segunda cristianização da futura Inglaterra, ainda, no momento, dividida em seus 7 reinos pagãos. Conta-se que, em menos de um ano de sua chegada, Agostinho teria batizado mais de 10.000 convertidos em Cantuária. À época, estabeleceu, nas cercanias dessa região, a sua catedral e fundou uma “família” episcopal – uma espécie de escola pública para meninos, e seminário teológico – com a fundação posterior, na mesma localidade, um mosteiro beneditino.

Porém, uma das críticas que se faz a Gregório, no que se refere à sua orientação pastoral para a Inglaterra, foi a concessão a Agostinho de autoridade sobre os bispos britânicos, os quais mantiveram acesa a chama da fé em uma região restrita (oeste), enquanto o resto do país tinha voltado ao paganismo. Como consequência, os bispos britânicos ressentiram-se de tal desrespeito, o que foi agravado pelo pouco tato de Agostinho para lidar com seus “liderados”. Dessa forma, os bispos britânicos se recusaram a cooperar com a Missão Romana, cuja prioridade era de evangelizar os odiados invasores e, depois, submeter toda a Igreja Cristã, lá existente, a Roma.

O processo de evangelização do norte da Inglaterra acabou gerando um destacado problema decorrente das diferenças entre as tradições celta e romana, além da não aceitação do jugo papal pelos seguidores da tradição celta.  Por meados do século VII, a relação entre os cristãos da Inglaterra tornou-se calamitosa. De um lado, no norte e centro, a tradição celta, e de outro, a missão romana, forte no sul, e também querendo atuar com eficiência em outras áreas, em nome do Bispo de Roma.

Gradativamente enfraquecidos, os celtas acabaram se confinando na Irlanda, onde a Igreja Celta continuou a existir de forma independente, até que, também a Escócia e a Irlanda submeteram-se à tutela romana, nos séculos subsequentes. No entanto, a perda da independência da Igreja Britânica Celta, neste período chamada de Igreja Saxônica, não significou a perda total das marcas celtas nela impressas: o fervor religioso, a vocação mística, o ascetismo, o ardor missionário, principalmente onde a Igreja Celta tinha sido mais forte: no norte da Inglaterra.

Em que pese a missão romana de remover as características peculiares do cristianismo céltico, curiosamente, a independência, uma das marcas celtas importantes, manteve-se sempre presente na Igreja Inglesa, com sua dificuldade de se submeter às ordens vindas de Roma.

Dessa forma, durante toda a Idade Média, a Igreja Inglesa manteve-se submetida à Igreja Romana e, como os demais países da Europa, a Inglaterra fazia parte do sistema papal vigente, apesar de suas marcantes características estatais e nacionalistas. A independência histórica sempre foi um fator de queixa da Igreja na Inglaterra, e apesar de ter sido nominada romana por 850 anos, sempre manteve a sua relação com o papado de forma bastante conflituosa.

No início da Idade Moderna, Lutero, um monge agostiniano alemão, fixou as suas 95 teses contra as indulgências que a Igreja cobrava, no momento, para os que desejassem a salvação da sua alma ou de seus queridos. Lutero concluiu, por seus estudos bíblicos, que a salvação era um presente de Deus aos que tinham fé e não algo a ser comprado. Associado a isso, outros aspectos foram por ele apontados, tais como a não necessidade da palavra de Deus ter intermediários, providenciando, então, a tradução da Bíblia para a linguagem vernácula, permitindo a expansão de sua leitura (Lutero traduziu o Novo Testamento para o alemão coloquial em 1522 e a Bíblia inteira em 1534); a não sujeição do cristão a qualquer autoridade eclesiástica, tendo em vista sua direta e intima relação com Deus; a contraposição às arrecadações desmedidas de fundos dedicadas, aparentemente, à construção de igrejas e basílicas extravagantes, sendo boa parte do dinheiro destinado ao custeio dos gastos episcopais. 

Em que pese o desejo inicial de Lutero e seus seguidores de desencadear uma reforma dentro da Igreja, razão pelo nome de “reformadores”, tal intento avançou de forma muito mais intensa, levando a protestos veementes contra atitudes autoritárias da Igreja em contraposição às suas propostas, passando, então, a serem chamados de “protestantes”, com sua rejeição à autoridade eclesiástica. Assim, a Cristandade Ocidental acaba se rompendo em sua unidade monolítica – avançava a Reforma Protestante, que deixou marcas importantes em toda a Cristandade Ocidental, mesmo dentro da Igreja de Roma e, como em outros países, deixou reflexos marcantes na vida da Igreja da Inglaterra.

Muitos já ouviram, com detalhes diversos, de forma mais ou menos floreada, a história de Henrique VIII que, no desejo de um novo casamento, não autorizado pela Igreja Romana, muito por conta de seus interesses geopolíticos, promove a ruptura com Roma, tão somente separando a igreja autônoma que lá já existia da tutela de Roma.

Paralelamente ao agravamento dos problemas matrimoniais de Henrique VIII, principalmente pela falta de um herdeiro masculino, as novas ideias do movimento reformista vinham da Alemanha e, mais tarde, da Suíça, as quais, tanto no plano político como no teológico, logo começaram a ser difundidas na Inglaterra. Lá elas foram alegremente recebidas pelos remanescentes da velha tradição Lolarda que eram discípulos de John Wycliff, cujas ideias, ainda no século XIV, eram bastante próximas daquelas assumidas e difundidas pela Reforma Protestante (Em 1382, Wycliff traduzira a Bíblia para o inglês, apesar de que sua versão ainda não se encontrava amplamente disponível).

No início de 1520, ensinamentos luteranos começaram a ser discutidos na Universidade de Cambridge, por um grupo de professores entusiastas, dentre os quais estaria um grupo de futuros bispos e arcebispos ingleses, incluindo Thomas Cranmer, Matthew Parker, Hugh Latimer e Nicholas Ridley.

Entre 1532 e 1534, o Parlamento inglês foi acionado por Henrique, sendo aprovadas uma série de leis, que cortavam, cada vez mais, as amarras da Inglaterra com o papado. A rompimento definitivo entre Henrique VIII e o papado deu-se, em 1534, quando o Parlamento inglês aprovou o Ato de Supremacia que colocou a Igreja sob a autoridade real. Nascia, então, a Igreja Anglicana.

Cabe um importante destaque neste ponto.

Muitos apontam Henrique VIII como o fundador da Igreja Anglicana, afirmativa encontrada, inclusive em livros históricos tendenciosos. Tal resposta, obviamente não corresponde à verdade, pelo simples fato de que tal rei, em que pese seu poder à época, não poderia fundar algo que já existia. É inquestionável que o verdadeiro fundador da Igreja Anglicana foi Jesus Cristo, pois nele todas as igrejas históricas tiveram sua origem, com subsequente disseminação pelo mundo afora e adquirindo, no curso da história, feições e características próprias. Dessa forma, a Igreja Anglicana atravessou os séculos sem perder as suas verdadeiras e principais características que remontam aos tempos dos apóstolos.

Três partidos ou tendências na Igreja da Inglaterra foram produzidas a partir da reforma inglesa do século XVI: Broad Church Party (igreja ampla), High Church Party (igreja alta) e Low Church Party (igreja baixa).

No século XIX, a igreja alta foi revigorada pelo Movimento de Oxford, levando a restauração, pelos anglo-católicos, de elementos teológicos e litúrgicos da Igreja Britânica Pré-Reforma. Assim, o uso das imagens no culto público era uma prática rotineira, bem como o uso das velas, do crucifixo, do incenso e da água benta. Praticavam, também, a invocação dos santos e a confissão auricular. Foram vitais no renascimento das ordens monásticas anglicanas.

Já a simplicidade do cerimonial litúrgico e espírito evangélico de evangelização vem sendo uma característica marcante da igreja baixa. Teologicamente, professam o protestantismo clássico, reconhecendo certos elementos católicos como os sacramentos e o episcopado histórico. Os anglo-evangélicos foram os grandes responsáveis pelo reavivamento evangélico na Inglaterra e em outros países, com forte preocupação missionária.

Por sua vez, a igreja ampla, inicialmente, era formada de um grupo minoritário, mas muito influente tendo em vista às suas posições moderadas. Sempre caracterizaram-se como o fiel da balança entre o ritualismo anglo-católico e o despojamento evangélico. Pode-se dizer que, nos dias atuais, boa parte das paróquias anglicanas enquadra-se nesse grupo.

O chamado tripé Escritura-Tradição-Razão é o cerne do modo de se fazer teologia anglicana. Simboliza que esses três elementos devem estar em equilíbrio constante, a fim de perceber o que o Espírito Santo está a dizer para a Igreja.

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