29.12.2019

O desafio do pluralismo religioso para a teologia latino-americana

 

Faustino Teixeira

 

Introdução

 

O pluralismo religioso aparece neste início de século como um dos desafios mais fundamentais para a teologia. Trata-se de um novo paradigma que vem convocar a teologia a retomar de forma viva a sua dimensão hermenêutica(1). A consciência singular do pluralismo religioso provoca um “novo modo de fazer teologia”, agora contextualizado numa realidade marcada pela dinâmica inter-religiosa. A teologia das religiões passa a ser compreendida como uma "teologia hermenêutica inter-religiosa"(2).

Na raiz desta teologia do pluralismo religioso(3) está a prática do diálogo inter-religioso. Trata-se de uma teologia que busca responder e interpretar, no plano de uma elaboração teórica, a realidade religiosa plural circundante. Mas como se sabe, não existe uma teologia universal do pluralismo religioso, pois toda reflexão teológica implica uma adesão de fé particular. O caminho aqui proposto insere-se no horizonte da reflexão teológica cristã, mas sempre aberto à perspectiva global mais ampla. Na medida em que tal reflexão vem animada permanentemente pelo espírito dialogal, ela implica uma verdadeira simpatia e empatia pelo universo da alteridade. O exercício de uma teologia cristã do pluralismo religioso exige uma dinâmica de acolhida da diferença, o que pressupõe a consciência viva da contingência e da vulnerabilidade. O grande desafio do diálogo inter-religioso está em reconhecer sem restrição alguma o caráter irredutível e irrevogável do outro interlocutor, com o qual se instaura a busca de um conhecimento mútuo e de um recíproco enriquecimento.

 

Ao situar-se sob o signo do pluralismo religioso, a nova reflexão teológica vem desafiada a ultrapassar uma concepção que se restringe ao reconhecimento do pluralismo de fato e avançar para a compreensão de um pluralismo de princípio. Nesta última direção, a teologia passa a reconhecer e afirmar a riqueza e o sentido que a pluralidade das religiões alcança no misterioso plano divino para a humanidade. Seguindo esta linha de reflexão, o pluralismo religioso vem acolhido positivamente, pois expressa “todas as riquezas da sabedoria infinita e multiforme de Deus”(4). Antes mesmo que os seres humanos se colocassem em busca do mistério de Deus, este mesmo mistério já os havia abraçado em sua infinita misericórdia. A realidade deste pluralismo religioso encontra, assim, “o seu fundamento primário na superabundante riqueza e variedade das auto manifestações de Deus à humanidade. A iniciativa divina de auto comunicação, ‘muitas vezes e de modos diversos’, e a sua ‘recepção’ e codificação em diversas tradições estão na origem da pluralidade das religiões”(5).

 

O reconhecimento e a abertura ao pluralismo de princípio não ocorrem sem resistências e dificuldades. Sobretudo nestes tempos de acirramento das identidades e de radicalização etnocêntrica, inúmeros obstáculos são contrapostos ao esforço teológico de pensar o pluralismo religioso de forma mais rica e aberta. O dado do pluralismo provoca uma crise nas estruturas de plausibilidade que buscam assegurar o nomos das identidades singulares e das comunidades de sentido. Sua incidência sobre os sistemas de crença suscita insegurança intelectual e afetiva, na medida em que rompe os diques de proteção territorial e convoca ao alargamento das fronteiras. O receio da relativização e da dessubstancialização dos conteúdos religiosos aciona o desejo de mais segurança, de estabilidade e fundamentação, provocando, assim, reações defensivas e/ou ofensivas contra o universo da alteridade.

 

Ao abordar a questão do pluralismo religioso, em obra clássica da sociologia da religião, Peter Berger mostrou como a situação pluralista engendrou não apenas a "era do ecumenismo", mas também a "era das redescobertas das heranças confessionais"(6). Diante da condição de incerteza provocada pelo pluralismo, bem como do temor de relativização a ele relacionado, tende-se em alguns casos a concentrar-se nas diferenças confessionais, como forma de garantia de manutenção da identidade ameaçada. Uma tal preocupação aparece de forma viva na declaração Dominus Iesus, da Congregação para a Doutrina da Fé(7). Na lógica da defesa da identidade encaixa-se perfeitamente a distinção estabelecida pela declaração entre fé teologal e crenças (Dl 7) e a negação do pluralismo religioso de princípio (Dl 4).(8)

 

Em sentido diverso, o caminho dialogai proposto pela teologia do pluralismo religioso implica não apenas o reconhecimento da diferença genuína que marca as diversas tradições religiosas, mas também sua riqueza, enquanto autenticamente preciosas. Há que honrar esta alteridade em sua especificidade peculiar. E honrar a alteridade é ser capaz de reconhecer o valor e a plausibilidade de um pluralismo religioso de direito ou de princípio. Este desafio foi assumido de forma viva pela teologia do pluralismo religioso e aparece agora como um caminho enriquecedor para a ampliação de horizontes da teologia da libertação.

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Notas

1 Claude GEFFRÉ. Croire et interpréter: le tournant herméneutique de Ia thélogie. Paris: Cerf, 2001, p. 9.

 

2 Jacques DUPUIS. Il cristianesimo e le religioni: dallo scontro alLincontro.Brescia: Queriniana, 2001, p. 34.

 

3 Este é o termo hoje mais preciso para tratar a questão, embora tradicionalmente fala-se mais em teologia das religiões. Neste trabalho os dois termos serão adotados, sendo o segundo aplicado, sobretudo, ao tratar o histórico desta reflexão teológica.

 

4 SECRETARIADO para os Não-Cristãos. A Igreja e as outras religiões. São Paulo: Paulinas, 2001, n. 41 (Documento Diálogo e Missão).

 

5 Jacques DUPUIS. Il cristianesimo... Op.cit, p. 469. Os teólogos asiáticos foram pioneiros neste reconhecimento do pluralismo de princípio. Num belo documento dos bispos da índia, datado de 1969, afirmava-se: As outras religiões não são muros para se atacar ou abater. Constituem morada do Espírito que nós ainda não visitamos; são receptáculos da Palavra de Deus que nós optamos por ignorar". Felix A MACHADO. Diventare un'autentica chie-sa locale: fare teologia nell'Ásia dei Sud. In: AAVV. Teologia delle religioni: bilanci e prospettive. Milano: Paoline, 2001, p.169.

 

6 PeterBERGER. O dossel sagrado. São Paulo: Paulinas, 1985, p. 159.

 

7 CONGREGAÇÃO para a Doutrina da Fé. Declaração Dominus Iesus. São Paulo: Paulinas, 2000 (Aqui siglada como Dl).

 

8 Segundo a declaração Dominus Iesus, a fé teologal consiste na "aceitação da verdade revelada por Deus Uno e trino"; já a crença nas outras religiões traduz "a experiência religiosa ainda à procura da verdade absoluta e ainda carecida do assentimento a Deus que se revela" (Dl 7). Trata-se de uma distinção que vem confirmar a adesão à teologia do acabamento, que busca marcar de forma nítida a diferença substancial entre o cristianismo e as outras religiões.

 

Obs.: Introdução do artigo “O desafio do pluralismo religioso para a teologia latino-americana”, do livro Pelos muitos caminhos de Deus / Franz Damen... [et al.] Goiás: Rede, 2003. 200p.

22.12.2019

Reordenar [1]

Minhas experiências mais antigas de Deus ocorreram em uma pequena igreja católica no meio oeste rural. Ainda me lembro do sentimento que às vezes vinha naqueles momentos de um devoto infantil: cabeça baixa, orando sinceramente dentro do entendimento de uma criança e experimentando esse contato misterioso e familiar até o âmago. Penso nessas experiências agora como o implante de um sinal de retorno que pulsou dentro de mim desde então.

Quando eu ainda estava no ensino médio, descobri a bebida e, em seguida, outras drogas. À medida que o vício se enraizava e progredia ao longo da década seguinte, esse pulso divino tornou-se fraco, obscurecido pela onda de muitos substitutos sintéticos... Vou poupar-lhe os detalhes desta jornada para a alienação e o desespero. Basta dizer, tomando emprestado as palavras de Richard, que foi um declínio vertiginoso da “ordem” da pura experiência e crença de uma criança para a “desordem” da vida desenredada de um jovem. Quando minha noiva finalmente seguiu em frente com nosso filho de um ano, por volta dos meus vinte e poucos anos, a cacofonia interior da auto aversão e o profundo lapso de drogas abafaram o pulso divino ou o sinal de retorno até que eu tivesse certeza de que estava perdido para mim.

“Reordenar”, no meu caso, veio na forma de “paint-by-numbers”, ou seja, a abordagem do programa chamado de “Os doze passos”, voltado para um verdadeiro despertar místico. Mas essa é uma organizada descrição de um processo confuso que teve início quando eu, voluntariamente, removi o que todos já viam como um problema para mim, mas eu entendia como minha solução: os medicamentos. Um viciado que parou de usar não é um viciado sem problemas, mas um viciado sem buffer. O início da recuperação ocorre em meio a desordens profundas e um vazio a ser preenchido. O caminho para reorganizar a partir daí não é para os fracos de coração.

 

Olho para trás agora - quarenta anos e vários ciclos de ordem, desordem e reordenação mais tarde - mesmo sem as drogas, e fica mais claro do que nunca que o antídoto para a doença da alma do vício em todas as suas formas é o espírito despertado.

Este fato está à vista das etapas. O segundo passo mantém a esperança de uma restauração da sanidade. Do ponto de vista do viciado, é esperança que as drogas sejam fornecidas à sua maneira: uma mudança na aparência da vida e nos sentimentos. Após a limpeza por meio dos três primeiros passos, com o crescimento do quarto ao décimo, ocorre o despertar e com a prescrição do décimo primeiro passo, a melhor procura do contato consciente com Deus. Nós voltamos para casa após um círculo completo. No meu caso, quando o décimo segundo passo olha para trás e observa que o resultado dessa jornada foi um despertar de espírito, refere-se à restauração da sanidade que havia naquele menininho que um dia eu fui, cabeça baixa, buscando e, em alguns momentos, experienciando o contato que progressivamente foi despertando. E tendo esse despertar, diz o passo, agora apareça para a próxima pessoa que precisa de um roteiro e de um companheiro nessa jornada, que vai da desordem à reordenação.

 

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[1] Depoimento de Ron H., membro da equipe do Centro de Ação e Contemplação - CAC, apresentado pelo Frei Richard Rohr, na página Meditação Diária do site oficial do CAC, de 20 de dezembro de 2019, e disponível em <https://cac.org/reorder-2019-12-20/>.

15.12.2019

A espiritualidade da impotência [1]

Acredito que Jesus e os Doze Passos dos Alcoólicos Anônimos estão dizendo a mesma coisa, mas com vocabulário diferente:

 

Sofremos para melhorar.

 

Nós nos rendemos para vencer.

 

Nós morremos para viver.

 

Nós deixamos ir para mantê-lo.

 

Haverá sempre resistência em relação a essa sabedoria contra, sendo negada e evitada até que nos seja imposta - por alguma realidade à qual somos impotentes - e se formos honestos, todos seremos impotentes na presença da Realidade plena.

 

Isso nos leva ao primeiro passo dos doze passos:

 

  • Admitimos que éramos impotentes perante o álcool - que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas. [2]

 

Ou como Paulo expressou: "Realmente não consigo entender o que faço; pois não pratico o que quero, mas faço o que detesto. Eu sei que o bem não mora em mim, isto é, na minha carne. Pois o querer o bem está ao meu alcance, não porém, o praticá-lo." (Romanos 7,15;18)

 

Meu bom amigo, padre Thomas Keating (1923–2018), ensinou que esta é a condição humana. Ele escreveu:

 

Este primeiro passo destaca o fato de que todos os seres humanos estão profundamente feridos. Desde a mais tenra infância, começamos o caminho para a autoconsciência, sem nenhuma ideia do que realmente é a felicidade, além da satisfação de nossas necessidades instintivas de (1) sobrevivência e segurança, (2) carinho, estima e aprovação, e (3) poder e controle (...).  Mas sendo a natureza humana o que é e o mundo um lugar perigoso, não podemos contar com o atendimento de nossas necessidades instintivas, e algumas crianças são terrivelmente privadas em uma ou em todas essas três áreas. Todos, é claro, são privados em algum grau porque nenhum pai é perfeito e, mesmo sendo, não pode controlar o ambiente, os professores e outras pessoas importantes que entram na vida da criança (...).

 

Ser impotente significa ser absolutamente desamparado (...). Curiosamente, essa é a melhor condição para o início de uma jornada espiritual. Por quê? Quanto maior a consciência da impotência e o desespero, maior é a disposição para procurar ajuda. Essa ajuda é oferecida nas próximas duas etapas. Você se entrega a um Poder Superior que acredita poder curá-lo e trabalhar com você na longa jornada para o desmantelo dos programas emocionais de felicidade (...).

 

A verdadeira jornada espiritual depende, basicamente, do reconhecimento da impossibilidade de administrar a vida. O amor de Deus ou o Poder Superior é o que nos cura. Ninguém se torna um ser humano completo sem amor. Traz à vida as pessoas mais danificadas. Os passos são realmente o engajamento em um relacionamento cada vez mais profundo com Deus. [3]

 

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[1] Adaptado de Richard Rohr, Respirar debaixo d'água: espiritualidade e os doze passos (Franciscan Media: 2011), xxiv, e disponível em <https://cac.org/the-spirituality-of-powerlessness-2019-12-09/>

 

[2] “J”, Um Simples Programa: Uma Tradução Contemporânea do Livro “Alcoólicos Anônimos” (Hyperion: 1996), 55.

 

[3] Thomas Keating com Tom S., Terapia Divina e Dependência: Oração Centrante e os Doze Passos (Lantern Books: 2009), 5-6, 9-10, 11-12.

8.12.2019

Confiança e convivência

Convido o leitor e a leitora a embarcar, inicialmente, numa viagem para o século XVI. Estamos na Espanha, no período mais feroz da Inquisição. Frequentemente, vêem-se arder as fogueiras com os chamados “hereges”, que seriam os inimigos da verdadeira fé.Neste inferno de chamas, Jesus volta à terra e anda entre o povo.Todo o mundo o reconhece. Enquanto começa a cuidar do povo, curar enfermos e ressuscitar mortos, chega o grande inquisidor. Imediatamente, manda prender Jesus. À noite, visita-o em sua estreita cela. “Por que vieste incomodar-nos?”, pergunta o grande inquisidor e anuncia que, no próximo dia, Jesus ia morrer na fogueira como um dos piores hereges. Num grande sermão, o inquisidor explica, essencialmente, o fracasso da mensagem evangélica. Jesus teria pro-clamado a liberdade, mas o povo não soube lidar com ela. Era preciso que a igreja o conduzisse. O povo queria a paz, a segurança, a felicidade, mesmo que submisso à autoridade da igreja. Não queria nem suportaria a liberdade, pois esta traria insegurança e risco. “Porque vieste agora nos estorvar?” Jesus não diz nada. Fica calado até o fim. Percebe que já não era Deus que habitava no coração do inquisidor, mesmo que representasse a igreja. No fim, beija-lhe os lábios. O inquisidor, com o coração queimado, deixa-o ir embora.“Vai-te e não voltes... não voltes nunca mais!”

 

Essa estória conta-nos o escritor russo Fiodor Dostoievski (1821-1881). É uma estória muito rica, tocando nos aspectos mais profundos da vida humana e da fé. Assim é o livro todo, do qual esse conto é extraído: Os Irmãos Karamazov. Das suas muitas facetas, destaco apenas uma: a liberdade, a característica mais profunda do ser humano, implica risco, implica assumir-se e não seguir simplesmente a autoridade. No conto, Jesus mostra que confia nessa qualidade humana, mais ainda: faz dela um aspecto central de sua proclamação do reino de Deus. Enquanto isso, a igreja do grande inquisidor, supostamente seguidora e representante terrena de Jesus, o Cristo, trata o ser humano como se fosse infante que precisa de cuidado materno. Como outrora o imperador romano, a igreja dá ao povo oque ele – ao menos supostamente – quer: panem et circenses – pão e jogos. Mas não confia na sua capacidade de usar a liberdade. Jesus, ao contrário, confia nos seres humanos e sua liberdade, conforme bem mostra Dostoievski. Junto-me a essa postura de confiança. Ve-remos adiante como é difícil construir convivência e como é preciso confiança não apenas na liberdade, mas no bom uso dela. Mas é na mensagem evangélica que somos seres livres, capazes, dignos. Não precisamos da tutela da autoridade absoluta de uma igreja ou outro poder, mas somos guiados pelo Cristo, palavra viva de Deus. A partir daí, a igreja é a comunhão, em Cristo, das pessoas livres.

 

Voltemos ao século XXI. No Brasil, a confiança entre pessoas está em baixa, como veremos. Será que as pessoas não confiam na capacidade dos outros de usar a liberdade – e, quiçá, nem em sua própria capacidade? Será que o grande inquisidor estava certo, afinal? Para construir comunidade e, portanto, para conviver na igreja e na sociedade, especialmente quando esta pretende ser democrática e baseada na cidadania, a confiança é imprescindível. Portanto, neste primeiro capítulo exploro esta relação tão fundamental quanto ameaçada: confiança e convivência. É este o ostinato, a sequência de tons que se repetirá como uma fundamentação musical ao longo de todo o livro. Para tal, precisamos de uma “hermenêutica da confiança”, ou seja, um olhar específico que norteie nossa percepção da convivência, no âmbito do ecumenismo e da sociedade.

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Parte inicial do primeiro capítulo do livro Sinner, Rudolf von. Confiança e convivência: reflexões éticas e ecumênicas. São Leopoldo: Sinodal, 2007.

1.12.2019

Como fazer com mais

Um mundo sem armas, sem grandes mansões em vastos bairros, sem montanhas de embalagens desnecessárias, sem gigantescas fazendas mecanizadas, sem o consumo de energia de grandes lojas, sem cartazes eletrônicos, sem pilhas intermináveis de lixo descartável, sem o consumo excessivo de bens que ninguém realmente precisa não se caracteriza, de fato, em um mundo empobrecido. Discordo dos ambientalistas que dizem que teremos de nos contentar com menos. De fato, vamos nos contentar com mais: mais beleza, mais comunidade, mais realização, mais arte, mais música e objetos materiais que são em menor número, mas superiores em utilidade e estética.

Parte da cura que uma economia sagrada representa é a cura da divisão que criamos entre espírito e matéria. De acordo com a santidade de todas as coisas, advogo um abraço, não um abandono, do materialismo. Acho que amaremos nossas coisas mais e não menos. Valorizaremos nossas posses materiais, honraremos de onde vieram e para onde irão. . . O baixo preço de nossas coisas faz parte de sua desvalorização, lançando-nos em um mundo barato, onde tudo é genérico e descartável.

Em resumo, a necessidade essencial que hoje não é atendida, a necessidade fundamental que toma mil formas, é a necessidade do sagrado - a experiência da singularidade e da conexão.

Estamos famintos por alimento espiritual. Estamos famintos por uma vida pessoal, conectada e significativa. Por opção, é para onde vamos direcionar nossa energia. Quando o fizermos, a comunidade surgirá novamente, porque esse alimento espiritual só pode chegar até nós como um presente, como parte de uma rede de presentes em que participamos como doadores e receptores.

Quando uso a palavra espiritual, não a estou distinguindo do material. Tenho pouca paciência com qualquer filosofia ou religião que procure transcender o reino material. De fato, a separação do espiritual do material é fundamental em nosso tratamento hediondo do mundo material. Portanto, quando falo em satisfazer nossas necessidades espirituais, não é para continuar produzindo coisas baratas, genéricas e que matam o planeta, enquanto meditamos, oramos e falamos sobre anjos, espírito e Deus. É tratar o relacionamento, a circulação e a própria vida material como sagrado. Porque eles são.

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Adaptação de Charles Eisenstein, Sacred Economics: Money, Gift and Society in the Age of Transition (Evolver Editions: 2011), 27-28, 425-426. Texto apresentado pelo Frei Richard Rohr, em sua Meditação Diária, disponibilizada no site oficial do Centro para Ação e Contemplação (Center for Action and Contemplation), no dia 25 de novembro de 2019.

24.11.2019

Para quem vê em profundidade, existe apenas uma Realidade

Minha fé me impulsiona à praça pública. Não há dúvida quanto à verdade na fala do Papa Francisco que a fé tem consequências reais no mundo (...) e essas consequências envolvem política (...) A religião / política está no centro da minha prática contemplativa. Sou nutrida diariamente pelas pessoas que conheço e cujas histórias ouço. Meu coração está aberto para a verdade de sua fome e esperança. Não é uma realidade teórica para mim. Antes, é a proclamação do Evangelho: Vá e pregue as boas novas! (...) Então, minha meditação se tornou respiração, para que possamos ver, para podermos caminhar e, no processo, curar nossa sociedade que é faminta por comunidade, na certeza de que pertencemos um ao outro.

Minha prática de meditação levou-me a ver que Deus está vivo em todos. Ninguém pode ficar de fora dos meus cuidados. Portanto, [nosso] trabalho político está ancorado em cuidar daqueles com quem trabalhamos, bem como daqueles cuja causa defendemos. Isso foi ilustrado para mim recentemente quando eu estava fazendo lobbying (tentando influenciar) junto a uma senadora. Ao comentar sobre a história de um constituinte, perguntei a ela como seus colegas podiam desviar os olhos do sofrimento e do medo de seu povo. A conversa continuou um pouco e, em seguida, a senadora voltou à minha pergunta. Ela disse que ... eles não se aproximavam das histórias sinceras do seu povo. De fato, alguns não viam esses constituintes como “seu povo”. Lágrimas surgiram em meus olhos com a sinceridade e a dor que nos mantém isolados um do outro por causa do partidarismo político.

De muitas maneiras, somos um pouco como os senadores que se isolam das necessidades de seus eleitores. Poderíamos ser pegos pela dor da rejeição e da culpa, lutando contra um julgamento injusto. Mas, para mim, a perspectiva contemplativa leva a abandonar meus desejos e controle, enquanto me abro para o presente do momento. Meu aprendizado consistente é que, por trás da perda, há sempre uma surpresa, abrindo-se para algo novo. Existem preços a serem pagos, mas são pequenos quando comparados à fome do nosso povo.

Minha oração conduziu-me à reflexão sobre o Evangelho levando-nos à compaixão. A compaixão geralmente leva a análises muito mais sutis. . . Essa abordagem mais sutil sai da minha oração e me chama para cuidar dos 100%, mas tem um preço. . . O Espírito nos tirou de nossa zona de conforto de aceitabilidade, a fim de atender às necessidades de pessoas que não reconhecíamos serem nossas.

Vamos orar juntos: Vem, Espírito Santo. Enche os corações dos teus fiéis e acende em nós o fogo do teu amor!

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Adaptação de Simone Campbell, “Religião e Política”, “Política e Religião”, Oneing, v. 5, n. 2 (Center for Action and Contemplation: 2017), 58, 59, 61, 62. Texto apresentado pelo Frei Richard Rohr, em sua Meditação Diária, disponibilizada no site oficial do Centro para Ação e Contemplação (Center for Action and Contemplation), no dia 21 de novembro de 2019.

17.11.2019

Teologia da Espiritualidade Cristã

 Pe. Frank Antonio de Almeida 

 

Todo cristão por excelência é chamado a uma vida espiritual, a viver a sua própria santidade. A santidade é a vontade de Deus para todos os seus filhos. (...)

A espiritualidade é a força que Deus nós dá para nos mantermos fieis aos compromissos pessoais e comunitários voltados para a transformação da sociedade tendo em vista o bem comum.

Espiritualidade é um jeito de viver, uma maneira de ser livre e sintonizado com as coisas de Deus, da Igreja, da família, da natureza e do mundo à luz do Espírito santo

10.11.2019

A busca pela justiça como

elemento de diálogo entre as religiões

Temas comuns ao ser humano e suas necessidades vitais, como sua sobrevivência (natureza), como também o convívio social (direitos humanos) estão na pauta do diálogo inter-religioso. Nesse sentido, teólogos vem contribuindo dentro desse contexto, onde as preocupações humanas sejam valorizadas. O século XXI apresenta enormes desafios diante de problemas reais para o ser humano e sua dignidade, mas tendem a serem minimizados por setores que controlam a economia na já consagrada globalização. É dentro dessa perspectiva, ou seja, favorecer o encontro e o diálogo entre as religiões, onde as preocupações emergentes do ser humano seja uma pauta prioritária, que trazemos algumas contribuições. A proposta desse artigo é, a partir do diálogo inter-religioso, articular o tema da justiça como elemento norteador do encontro entre as religiões.

3.11.2019

O modo como você responde a essa pergunta depende muito do que você vê a Bíblia. Se você acredita que a Bíblia é um ensino único, atemporal e internamente consistente sobre questões de moralidade humana ditadas por Deus, então sim, o livro de Levítico do Antigo Testamento é definitivamente desconfortável com a "homossexualidade". Mas também é desconfortável com mulheres menstruadas, moluscos e pele de porco. (E, para que conste, há algumas palavras muito duras sobre emprestar dinheiro a juros, uma proibição que mesmo os literalistas bíblicos parecem achar perfeitamente permitido desconsiderar!)

Como a maioria dos cristãos que pensam criticamente, vejo a Bíblia como uma sinfonia (às vezes uma cacofonia!) De vozes humanas divinamente inspiradas, testemunhando um surpreendente desenvolvimento evolutivo em nossa compreensão humana de Deus (ou a auto revelação de Deus à medida que amadurecemos o suficiente para começar a compreendê-lo, outra maneira de dizer a mesma coisa).

Como cristã, sou obrigada, quando ouço essa diversidade de vozes bíblicas, a definir minha bússola pelos ensinamentos e pelo caminho percorrido pelo próprio Jesus. Onde o testemunho bíblico é internamente inconsistente (e até Jesus o experimentou dessa maneira!), devo honrar Jesus como meu último tribunal de apelação. Assim, a linha inferior deve ser inevitavelmente que em nenhum lugar Jesus condena gays ou lésbicas (ou qualquer outra pessoa identificada na diversidade de LGBTQ +), e certamente em nenhum lugar ele deseja prejudicar alguém, mesmo aqueles a quem a cultura religiosa rapidamente condena como pecadores. Suas palavras duras são reservadas inteiramente para aqueles cuja certeza sobre sua retidão religiosa os leva a condenar os outros. Jesus fala e vive apontando a inclusão, o perdão e o empoderamento. À luz de sua presença compassiva, as pessoas são libertadas para viver suas vidas com força e esperança, independentemente de serem consideradas proscritas pelos que estão no "saber religioso".

Há uma parte em cada um de nós que prefere a certeza de um livro de regras imutáveis à radical abertura da auto revelação contínua de Deus no amor. Mas como cristã, quando confrontada com uma tensão entre uma certeza religiosa que me leva a violar a lei do amor e um profundo desconhecimento que ainda se move na direção de "amar o meu próximo como a mim mesmo" (Mateus 22,39), sinto-me obrigada a escolher o último curso.

"Eu sou aquele que sou" é o nome que Deus pediu a Moisés para conhecê-Lo no livro de Êxodo (3,14). Assim sendo, como uma linha de influência sobre o meu pensamento, e a revelação cada vez maior da misericórdia e compaixão de Deus, sou obrigada pelo meu cristianismo a abster-me de quaisquer comportamentos ou julgamentos que depreciem arrogantemente a dignidade de outro ser humano ou que os levem a perder a esperança.

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Texto extraído pelo Frei Richard Rohr de C. S. Song, Jesus, the Crucified People (Fortress Press: 1996), ix, x, na seção de Meditação Diária do site do Centro de Ação e Contemplação, do dia 29 de outubro do corrente ano, intitulada “Uma seção transversal do espaço-tempo”. .

27.10.2019

O que a Bíblia diz sobre orientação sexual?

 

O modo como você responde a essa pergunta depende muito do que você vê a Bíblia. Se você acredita que a Bíblia é um ensino único, atemporal e internamente consistente sobre questões de moralidade humana ditadas por Deus, então sim, o livro de Levítico do Antigo Testamento é definitivamente desconfortável com a "homossexualidade". Mas também é desconfortável com mulheres menstruadas, moluscos e pele de porco. (E, para que conste, há algumas palavras muito duras sobre emprestar dinheiro a juros, uma proibição que mesmo os literalistas bíblicos parecem achar perfeitamente permitido desconsiderar!)

Como a maioria dos cristãos que pensam criticamente, vejo a Bíblia como uma sinfonia (às vezes uma cacofonia!) De vozes humanas divinamente inspiradas, testemunhando um surpreendente desenvolvimento evolutivo em nossa compreensão humana de Deus (ou a auto revelação de Deus à medida que amadurecemos o suficiente para começar a compreendê-lo, outra maneira de dizer a mesma coisa).

Como cristã, sou obrigada, quando ouço essa diversidade de vozes bíblicas, a definir minha bússola pelos ensinamentos e pelo caminho percorrido pelo próprio Jesus. Onde o testemunho bíblico é internamente inconsistente (e até Jesus o experimentou dessa maneira!), devo honrar Jesus como meu último tribunal de apelação. Assim, a linha inferior deve ser inevitavelmente que em nenhum lugar Jesus condena gays ou lésbicas (ou qualquer outra pessoa identificada na diversidade de LGBTQ +), e certamente em nenhum lugar ele deseja prejudicar alguém, mesmo aqueles a quem a cultura religiosa rapidamente condena como pecadores. Suas palavras duras são reservadas inteiramente para aqueles cuja certeza sobre sua retidão religiosa os leva a condenar os outros. Jesus fala e vive apontando a inclusão, o perdão e o empoderamento. À luz de sua presença compassiva, as pessoas são libertadas para viver suas vidas com força e esperança, independentemente de serem consideradas proscritas pelos que estão no "saber religioso".

Há uma parte em cada um de nós que prefere a certeza de um livro de regras imutáveis à radical abertura da auto revelação contínua de Deus no amor. Mas como cristã, quando confrontada com uma tensão entre uma certeza religiosa que me leva a violar a lei do amor e um profundo desconhecimento que ainda se move na direção de "amar o meu próximo como a mim mesmo" (Mateus 22,39), sinto-me obrigada a escolher o último curso.

"Eu sou aquele que sou" é o nome que Deus pediu a Moisés para conhecê-Lo no livro de Êxodo (3,14). Assim sendo, como uma linha de influência sobre o meu pensamento, e a revelação cada vez maior da misericórdia e compaixão de Deus, sou obrigada pelo meu cristianismo a abster-me de quaisquer comportamentos ou julgamentos que depreciem arrogantemente a dignidade de outro ser humano ou que os levem a perder a esperança.

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Adaptado de Cynthia Bourgeault, “Cynthia Bourgeault on Homosexuality in the Bible,” Goop, <https://goop.com/wellness/spirituality/homosexuality-in-the-bible/..> Disponibilizado pelo Fr. Richard Rohr, em sua Meditação Diária, no site do Centro para Ação e Concentração em 22 de outubro de 2019.

20.10.2019

Conhecer a Deus

 

O que significa "conhecer a Deus"? Quem são aqueles que conhecem a Deus?

As perguntas parecem simples e as respostas vêm à mente de forma imediata. Aqueles que conhecem a Deus são os que tiveram alguma experiência de Deus sobre a qual podem nos contar - alguns com muita facilidade e clareza, sendo totalmente convincentes, outros de maneira contida e desastrada, indicações autênticas da magnitude e grandiosidade do encontro que estão tentando descrever. Essas pessoas nos dirão que encontraram Deus por meio de outra pessoa, ou do pôr-do-sol, ou da compulsão de obedecer a uma exigência moral, ou do sentido da imensidão do espaço e de sua própria pequenez, ou lendo o Bíblia, ou, ainda, meditando sobre a vida de Jesus. Os que chamamos de “santos” são frequentemente aqueles de quem obtemos nossa imagem mais clara de como se deve conhecer a Deus; suas vidas de oração, meditação e boas obras têm uma bondade transparente que atrai o nome e a vontade de Deus de forma convincente.

Em contraste com essas, conhecemos outras pessoas que não fazem tais alegações. (...) Para algumas delas, Deus simplesmente não é um problema, e eles vivem bem e decentemente, porém com inquietações referentes à realidade ou a não realidade de Deus. (...) Já para outras, Deus é algo ou alguém que eles descartaram conscientemente. (...) Eles podem viver vidas exemplares, demonstrando preocupação pelo próximo, até fazendo sacrifícios pela causa dos pobres e dos necessitados. Mas alegam não mais "conhecer a Deus".

A descrição acima é bastante comum, (...) mas estaremos violando seriamente o entendimento da Bíblia sobre o que significa "conhecer a Deus" se a deixarmos assim. Há um curto - e surpreendente - episódio no livro de Jeremias [22,13-17] que coloca de outra maneira a questão de "conhecer a Deus":

Ai daquele que para si construiu esse palácio por meios desonestos, e seus salões, violando a equidade. Ai daquele que faz seu próximo trabalhar sem paga, e lhe recusa o salário! E daquele que diz: “Vou mandar construir suntuosa morada, salões espaçosos, com largas janelas e revestimento de cedro, e pinturas de vermelho”. Julgas ter o posto de rei porque rivalizas no emprego do cedro? Também teu pai comia e bebia, praticava a justiça e a equidade, e tudo lhe era próspero. Julgava a causa do pobre e do infeliz, e tudo lhe era próspero. Não é isso conhecer-me? – oráculo do Senhor. Mas teus olhos e teu coração não procuraram senão satisfazer tua cobiça, derramar o sangue do inocente e exercer a opressão e a violência.

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Robert McAfee Brown, Unexpected News: Reading the Bible with Third World Eyes (The Westminster Press: 1984), 63-65. Disponibilizado pelo Fr. Richard Rohr, em sua Meditação Diária, no site do Centro para Ação e Concentração em 16 de outubro de 2019.

13.10.2019

Considerações acerca do campo religioso atual:

diálogo ecumênico e inter-religioso

Fabricio Veliq​

O presente artigo tem o intuito de abordar as temáticas do diálogo ecumênico e do diálogo inter-religioso no campo religioso atual, apresentando perspectivas teológicas para a compreensão dessas duas abordagens. Para o diálogo ecumênico, apresentamos um panorama histórico de sua evolução, a fim de entendermos os avanços e identificarmos algumas lacunas que ainda se mostram na atualidade cristã.Para o diálogo inter-religioso, focamos em trabalhar a temática da pluralidade religiosa presente no mundo atual como fruto da Modernidade e apresentar importantes apontamentos de diversos teólogos do século XX.

6.10.2019

Os menores (1)

 

Nos últimos oitocentos anos, homens e mulheres, inspirados pelo simples gênio e frescor de Francisco e Clara, vêm desenvolvendo e popularizando a revelação franciscana original. Esse contínua atualização vem tendo um profundo efeito humanizador no cristianismo, na civilização ocidental e em outras culturas.

Não é fácil colocar em uma cápsula o espírito e os dons do pensamento franciscano. Suas marcas são simplicidade, reverência, fraternidade, ecumenismo, ecologia, interdependência e diálogo. Seu lema e saudação é "Paz e Bem!"

Francisco acreditava que Deus era não-violência, o Deus da Paz. Essa crença pode ser um simples pressuposto para nós hoje, mas no momento em que a igreja cristã estava empreendendo uma santa cruzada contra seus inimigos, os sarracenos [muçulmanos árabes], a interpretação de Francisco da vida do evangelho e de suas exigências foi revolucionária. Francisco viu isso do ponto de vista dos pobres, especialmente no lugar dos pobres, nus e sofredores de Cristo. Ele tinha profunda devoção a Deus, revelado como não violento e pobre no estábulo de Belém, como abandonado na cruz e como alimento na Eucaristia. A mansidão, humildade e pobreza de Deus levaram Francisco a tornar-se "perfeito como seu Pai Celestial era perfeito". [Francisco concordou com o entendimento de Lucas de que "perfeito" significa misericordioso ou compassivo.] Francisco identificou-se com os "menores", os de classe baixa em sua sociedade. . . . [As letras OFM após nossos nomes representam Ordem dos Frades Menores ou Ordo Fratum Minorum, que significa Irmãozinho]. Ele apontou, apaixonadamente, a Encarnação [de Jesus] como a prova viva do amor de Deus e, gritava, frequentemente, em sua dor que "o Amor não é amado!"

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1. Meditação Diária de Richard Rohr, disponível no site do Centro para Ação e Concentração em 1 de outubro de 2019.

29.9.2019

Amor é universal (1)

Toda criatura racional, toda pessoa e todo anjo têm duas forças principais: o poder de conhecer e o poder de amar. Apesar de Deus ter criado os dois, Ele somente é conhecido inteiramente por meio do segundo, porque uma alma amorosa está aberta para receber a abundância de Deus. A própria natureza [de Deus] torna o amor infinito e milagroso. Deus nunca deixará de nos amar. Considere esta verdade e, se pela graça você puder amar por você mesmo, faça-o. Pois a experiência é de uma eterna alegria e sua ausência é um sofrimento sem fim. (2)

No século XIV, o autor inspirado e anônimo de A Nuvem do Não-Saber ensinou que Deus em Cristo lidou com o pecado, a morte, o perdão e a salvação “todos de uma só vez”. É uma frase bastante incomum, até caseira, mas, para mim, essa leitura corporativa e mística da história contribui para a visão de unidade que estamos buscando, ao tentarmos entender o Cristo Universal. Jesus, por si mesmo, parece um indivíduo, embora um indivíduo divino, mas o Cristo é uma imagem convincente para essa visão de unicidade da realidade. No século XIV, o autor de A Nuvem do Não-Saber teria desfrutado dos últimos momentos remanescentes do holismo místico antes da Reforma e do Iluminismo elevarem o pensamento dualista. O escritor refletiu o entendimento da Igreja Oriental compreendendo a ressurreição como um fenômeno universal, e não apenas do Jesus solitário ressuscitando dos mortos e levantando as mãos como se tivesse acabado de marcar um gol, como é descrito na maioria das artes ocidentais, e até mesmo em um mosaico gigante que paira sobre o estádio de futebol da Universidade de Notre Dame.

Estou convencido de que o Evangelho nos oferece uma compreensão holística e integral das coisas. (...) E, é claro, tudo isso surge da principal metáfora de Jesus do “Reino de Deus”, uma noção coletiva que alguns estudiosos dizem ser apenas sobre tudo o que ele fala. Até começarmos a ler a história de Jesus pelas lentes coletivas de Cristo, sinceramente acho que os cristãos perdem grande parte de sua mensagem principal e limitam seu significado à salvação, recompensa e punição individuais. Sem uma espiritualidade universal e unificadora, a sociedade permanecerá inalterada.

Somente com a humilde rendição ao caminho radical do amor é que resultará na descoberta de que Deus não é o objeto de nosso desejo e amor, mas é o próprio amor. Como ensina o autor de A Nuvem, Deus é a força que está ligando, movendo, sustentando e transformando toda a humanidade e toda a criação a cada respiração e cada mudança evolutiva em nosso planeta.

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1. Meditação Diária de Richard Rohr, disponível no site do Centro para Ação e Concentração em 23 de setembro de 2019.

2. The Cloud of Unknowing with the Book of Privy Counsel, trans. Carmen Acevedo Butcher (Shambhala: 2009), 14.

22.9.2019

Para uma comunidade ecumênica, solidária e cidadã

Zwinglio Mota Dias, doutor em Teologia pela Universidade de Hamburgo (Alemanha), Professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, MG e Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, procura, neste texto, estabelecer alguns critérios ético-teológicos para a reconstrução da comunidade cristã numa perspectiva ecumênica, a partir da constatação do esgotamento do modelo de ecumenismo que vigorou até uma

década atrás. Para tanto, faz uma crítica da sociedade de consumo regida pelo monoteísmo do mercado e chama-se a atenção para os valores do Reino (justiça, misericórdia, compaixão e solidariedade) como as marcas anti-sistêmicas da autêntica comunidade dos seguidores de Jesus de Nazaré.

15.9.2019

Robert A. Johnson, Owning Your Own Shadow: Understanding the Dark Side of the Psyche (HarperSanFrancisco: 1991), 4-5, 7-9, 10.

 

Todos nascemos inteiros, na expectativa de morrermos da mesma forma. Mas em algum momento do caminho, comemos um dos maravilhosos frutos da árvore do conhecimento, coisas que separam o bem do mal, e começamos o processo de criação das sombras: dividimos nossas vidas. No processo cultural, classificamos nossas características dadas por Deus naquelas que são aceitáveis para a sociedade e aquelas que precisam ser descartadas. Isso é maravilhoso e necessário, e não haveria comportamento civilizado sem essa separação do bem e do mal. Mas as características recusadas e inaceitáveis não desaparecem; elas apenas se acumulam nos cantos escuros da nossa personalidade. Quando ficam ocultas por tempo suficiente, elas assumem uma vida própria - a vida sombria.

A sombra é aquilo que não acessou adequadamente à consciência. É o quarto desprezado do nosso ser. Muitas vezes, tem um potencial energético quase tão grande quanto o do nosso ego. Se ela acumular mais energia do que o nosso ego, irrompe como uma raiva avassaladora ou alguma indiscrição ou um acidente que parece ter seu próprio objetivo. (...)

Também é surpreendente descobrir que algumas características muito boas, da mesma forma, podem aparecer da sombra. Geralmente, tais características são comuns e mundanas. Qualquer coisa menos do que isso permanece na sombra. Mas, também, qualquer coisa melhor, igualmente, fica na sombra! Boa parte do puro ouro de nossa personalidade é relegada à sombra, porque não encontra lugar nesse grande processo de nivelamento que é a cultura.

Curiosamente, as pessoas resistem aos aspectos nobres de suas sombras com mais força. (...) O ouro está relacionado ao nosso chamado mais elevado, e isso pode ser difícil de aceitar em certas fases da vida. (...)

Onde quer que comecemos e seja qual for a cultura de onde nascemos, [a maioria de nós] chegará à idade adulta com um ego e uma sombra claramente definidos, um sistema de certo e errado, uma gangorra de dois lados. O processo religioso consiste em restaurar a totalidade da personalidade. (...)

Geralmente, a primeira metade da vida é dedicada ao processo cultural - ganhar habilidades, criar uma família, disciplinar a si mesmo de centenas de maneiras diferentes; a segunda metade da vida é dedicada à restauração da totalidade (santificação) da vida. Alguém pode reclamar que esta é uma viagem de ida e volta sem sentido, exceto que a totalidade no final é consciente enquanto estava inconsciente e infantil no começo.

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Texto disponível na página de Meditação Diária, disponível no site oficial do Centro para Ação e Contemplação (Richard Rohr's Daily Meditation from the Center for Action and Contemplation), apresentado no dia 10 de setembro de 2019.

8.9.2019

Tornando as coisas novas [1]

Ilia Delio

A evolução nos leva a pensar em Deus como impulsionando o mundo para a frente, levando-o para um novo futuro. A teologia do processo sustenta que Deus não é simplesmente uma ordem impessoal nem simplesmente a pessoa individual que cria o universo. Pelo contrário, Deus e o mundo estão em processo juntos; o mundo participa continuamente de Deus e Deus do mundo. Deus, que é o fundamento primordial da ordem, incorpora dentro de si a ordem das possibilidades, as formas potenciais de relacionamento que não são caóticas, mas ordenadas, mesmo antes de serem atualizadas. Nada menos que uma força transcendente, radicalmente distinta da matéria, mas também encarnada nela, poderia explicar a evolução. (...) Deus é distinto do mundo, mas essencial para ele, assim como o mundo é essencial para Deus. À parte de Deus, não haveria nada de novo no mundo e nenhuma ordem no mundo. Deus influencia o mundo sem determiná-lo. Essa influência é a atração de ideais a serem realizadas, a visão persuasiva do bem; contribui para a auto-criação de cada entidade.

 

A evolução traz consigo o aumento da consciência e, à medida que a consciência aumenta, também aumenta a consciência que se tem de Deus. A pessoa humana é criada para ver Deus em todos os aspectos da vida, a qual é carregada de energia divina, assim como para amar o tudo o que se vê. A esse respeito, as Escrituras são escritas diariamente nos supermercados, nos lares de idosos, nos parques, nos correios, nos cafés, nos bares e nos roteiros da vida doméstica e comunitária. Deus não está pairando sobre nós, Ele é a incrível profundidade, amplitude, imaginação e criatividade na cultura, arte, música, poesia, ciência, literatura, cinema, academias e parques - todos de alguma forma falam a palavra de Deus. Todo lugar é lugar para encontrar Deus, pois Ele está em tudo.

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[1] Ilia Delio, Making All Things New: Catholicity, Cosmology, Consciousness (Orbis Books: 2015), 143-144. Disponível na Trigésima sexta semana da página “Richard Rohr's Daily Meditation” (Meditação Diária de Richard Rohr), que pode ser encontrada no site do “Center for Action and Contemplation” (Centro de Ação e Contemplação). Está na sequência da Cosmologia: Parte Dois , e publicada com o título Participando em Deus, em 1 de setembro de 2019.

1.9.2019

Fundos Reservados (1)

 

Marc Vilarassau, sj

Há vinte anos atrás, cheguei a pensar que a diferença entre tudo ou nada representava as bases decisivas na minha vida. Senti a urgência de dar tudo sem reservar nada ... E aqui estou eu, vinte anos depois, descobrindo que, embora o pano de fundo seja autêntico, as coisas não são tão simples, tampouco as dicotomias tão claras.

Ao recém ingressar na quarta década de vida, percebo que a diferença capital não está entre tudo ou nada, mas sim entre tudo e quase tudo.

O problema não é tanto o que você dá - que pode ser muito e boníssimo -, mas sim o que você reserva - mesmo que seja pequeno e insignificante. É esse “fundo reservado” que, de repente, cobra seu preço.

Uns reconhecem que viveram plenamente, que se entregaram generosamente, que deram muito de si; mas, mesmo assim, não importa quão honesto que sejam consigo mesmos, eles descobrem que ainda permanece um resto de insatisfação, um sentimento insuportável de que algo está faltando, que aquela carta guardada secretamente debaixo da manga também precisa ser entregue, caso contrário, manterão estampado no rosto o sorriso que mostra apenas metade da alma.

Não me refiro a essas reservas legítimas e até necessárias; refiro-me aquelas reservas mesquinhas, aquela caldeira existencial guardada em uma caixa, não como um estoque para ser doado quando necessário, mas como uma reserva para ser contida [apego!!].

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[1] Disponível em <https://lahesiquia.wordpress.com/2019/08/26/fondos-reservados/>.

25.8.2019

A vida não-violenta

John Dear

 

O que significa ser não violento? Vindo da palavra hindu / sânscrito ahimsa, a não-violência foi definida há muito tempo como "não causar dano, dano algum, nenhuma violência a qualquer criatura viva". Mas Mohandas Gandhi insistiu que isso significa muito mais que isso. Ele disse que a não-violência era o amor ativo e incondicional pelos outros, a busca persistente da verdade, o perdão radical para aqueles que nos ferem, a firme resistência a todas as formas do mal e até a disposição amorosa de aceitar o sofrimento na luta pela justiça, sem que haja o desejo de retaliação.

Outra maneira de entender a não-violência é inseri-la no contexto de nossa identidade. Praticar a não-violência significa reivindicar nossa identidade fundamental como os amados [filhos] do Deus da paz. Isto é o que Jesus ensinou: “Bem-aventurados os pacificadores; eles serão chamados filhos e filhas de Deus (...). Amai os vossos inimigos e orai pelos vossos perseguidores; depois sereis filhos e filhas do Deus que faz nascer o sol sobre o bem e o mal, e faz cair a chuva sobre justos e injusto” [Mateus 5,9; 44-45]. No contexto de sua não-violência visionária - pacificação radical e amor pelos inimigos - Jesus fala de ser quem já somos. Ele fala sobre nossas verdadeiras identidades como se elas nos impelissem a ser pessoas que amam a não-violência.

Viver a não-violência requer meditação diária, contemplação, estudo, concentração e atenção plena. Assim como a falta de atenção leva à violência, a atenção plena constante e a percepção consciente de nossas verdadeiras identidades levam à não-violência e à paz. As implicações sociais, econômicas e políticas dessa prática são surpreendentes: se somos [filhos] de um Criador amoroso, então todo ser humano é nosso [irmão], e nunca mais poderemos ferir alguém na terra, muito menos ficar em silêncio diante da guerra, da fome, do racismo, do sexismo, das armas nucleares, da injustiça sistêmica e da destruição ambiental.

Gandhi disse que Jesus praticava a perfeita não-violência. Se isso é verdade, então como. . . ele incorporou a não-violência criativa tão bem? A resposta pode ser encontrada no início de sua história, no seu batismo. Jesus ouve uma voz dizer: “Você é meu amado filho; contigo estou bem satisfeito”. Ao contrário da maioria de nós, Jesus aceita este anúncio do amor de Deus por ele. Ele reivindica sua verdadeira identidade como o filho amado do Deus da paz. A partir de então, ele sabe quem ele é. Ele é fiel a essa identidade até o momento em que ele morre. Do deserto até a cruz, ele é fiel a quem ele é. Ele se torna quem ele é e faz jus a quem ele é, e assim ele age publicamente como o amado de Deus.

18.8.2019

Contemplação [1]

 

Há uma filosofia perene que não é relativa à história, cultura ou comunidade linguística. É uma filosofia, ou talvez melhor denominada uma epistemologia alternativa, que afirma continuamente que a percepção pura e não filtrada é possível. Essa epistemologia alternativa perenemente aparece em todas as grandes tradições religiosas. Em todas as épocas e em todas as tradições culturais, há aqueles que praticam uma forma de contemplação que os coloca em posição de receber o dom de um encontro divino não filtrado.

Ao contrário daqueles que imaginam que podem experimentar e conhecer a Deus da maneira como conhecem outras coisas, o contemplativo sabe que Deus é encontrado de um modo muito diferente de qualquer experiência comum. Nossa experiência comum é sempre uma interpretação baseada no entendimento conceitual que trazemos para os dados da experiência. Quando nos deparamos com o divino, nossa compreensão conceitual não está preparada para ir além de deficientes interpretações. Se reconhecermos isso, tratamos nossos encontros com o divino muito diferentemente do que nossa experiência normativa, e esperamos o divino sem todos os filtros pelos quais normalmente processamos os dados de nossa experiência.

Consequentemente, o encontro divino é algo direto e puro, pois não há palavras ou conceitos apropriados pelos quais se possa interpretá-lo. Maggie Ross refere-se ao encontro com o divino como "contemplação". [2] Contemplar é a antítese da experiência ordinária em que o eu, que geralmente processa os dados de nossa experiência por meio de um entendimento herdado de nossa história, cultura e comunidade linguística, está suspenso e mudamos nosso foco para estarmos abertos a um compromisso que desafia qualquer meio de compreensão que trazemos.

O que torna a experiência contemplativa universal e perene é que os contemplativos suspendem o entendimento pelo qual suas mentes acessam e processam ativamente os dados de sua experiência. O preconceito da mente moderna é que o conhecimento deve ser algo que podemos possuir, mas o conhecimento que vem de nossos encontros com o divino nos possui e infunde em nós um conhecimento inefável.

A oração do contemplativo é, essencialmente, uma atenção à onipresença de Deus. Deus é onipresente não como uma doutrina teológica, mas como o grande silêncio que está presente em todos os momentos - mas do qual somos geralmente distraídos por uma mente hiperativa que se recusa a esperar em um humilde desconhecimento de uma pura sabedoria vinda de cima [Tiago 3,17]. [3]

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[1] Reflexão de James Danaher, disponível na seção Meditações Diárias de Richard Rohr, do site oficial do Centro para Ação e Contemplação (Center for Action and Contemplation).

[2] Maggie Ross, “Behold Not the Cloud of Experience,” The Medieval Mystical Tradition in England: Exeter Symposium VIII, ed. E. A. Jones (Boydell and Brewer: 2013), 29-50.

[3] James P. Danaher, “What’s So Perennial About the Perennial Philosophy?” “The Perennial Tradition,” Oneing, vol. 1, no. 1 (Center for Action and Contemplation: 2013), 50-51, 53. No longer in print; a Kindle version is available from Amazon.

11.8.2019

Alguns conselhos sobre a oração 

Eremita anônimo

Na oração, não se trata de pedir coisas a Aquele que tudo sabe. A oração não é dizer a Deus o que você quer, mas ouvir o que Ele quer para você e que não é outra coisa senão compartilhar o que Ele é: tranquilidade profunda, bem-aventurança, paz, bondade, beleza, amor ...

Não se trata de pedir coisas, mas de entender que você não precisa de nada mais do que a presença de Deus e descansar naquela morada repleta de suas qualidades.

14.7.2019

"Caminho, Verdade e Vida"

Fábio Lins

Todos nós já ouvimos, se é que não lemos, a famosa frase de Jesus em São João 14,6 "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim." A segunda sentença foi e tem sido sistematicamente abusada por intolerantes de todos os matizes. É importante notar que embora eu critique esses exageros de fideísmo, existem outras passagens como a famosa de São João, na qual Jesus ora para que todos sejam um que tem sido, mais recentemente, abusada para instaurar uma espécie de relativismo que não poderia ser mais exógeno ao Evangelho.

 

Mas o objetivo deste texto é, na verdade, deter-se sobre a primeira sentença do trecho citado.

7.7.2019

Abandono na Providência Divina

Jean-Pierre de Caussade (1675-1751), jesuíta

Todas as criaturas estão vivas na mão do Senhor; os sentidos só captam a ação da criatura, mas a fé crê na ação divina em todas as coisas. A fé vê que Jesus vive em tudo e opera em toda a extensão dos séculos, que o mínimo momento e o menor átomo encerram uma porção desta vida escondida e desta ação misteriosa. A ação das criaturas é um véu que cobre os mistérios profundos da ação divina.

Após a sua ressurreição, Jesus Cristo surpreendia os discípulos nas suas aparições, apresentando-Se-lhes com uma aparência que O disfarçava; e, assim que Se lhes revelava, desaparecia. Este mesmo Jesus, que continua vivo e operante, volta a surpreender as almas cuja fé não é suficientemente pura e perspicaz. Não há momento algum em que Deus não Se apresente sob a aparência de uma provação, de uma obrigação ou de qualquer dever. Tudo o que acontece em nós, em torno de nós e por nós encerra e encobre a sua ação divina, se bem que invisível, que faz com que sejamos constantemente surpreendidos e não conheçamos a sua operação a não ser quando ela deixa de subsistir.

Se rasgássemos o véu e se estivéssemos vigilantes e atentos, Deus revelar-Se-nos-ia sem cessar e usufruiríamos da Sua ação em tudo o que nos acontece. Em cada coisa diríamos: «É o Senhor!» E saberíamos em todas as circunstâncias que recebemos uma dádiva de Deus, que as criaturas são instrumentos muito fracos, que nada nos faltará e que o cuidado permanente de Deus O leva a conceder-nos o que nos convém.

23.6.2019

Como amamos(1)

 

(Domingo, 16 de junho de 2019)

Como nos relacionamos com alguém que amamos. . . fornece um espelho extremamente claro e preciso de como nos relacionamos com nós mesmos. (John Welwood)[2]

 

O amor autêntico é de uma só forma. A forma de você amar alguma coisa é como você ama tudo o mais. Jesus nos ordena a “Amar nosso próximo como amamos a nós mesmos”, e ele conecta os dois grandes mandamentos de amor a Deus e o amor ao próximo, dizendo que eles são “semelhantes” entre si (Mateus 22,39). Muitas vezes, pensamos que isso significa amar o próximo com a mesma intensidade com a qual nos amamos, mas na verdade significa que é a mesma Fonte e o mesmo Amor que permite que cada um de nós ame a si próprio, os outros, e Deus, ao mesmo tempo! Infelizmente, essa não é a maneira como a maioria das pessoas entende o amor, a compaixão e o perdão - mas é a única maneira pela qual elas trabalham. Como você ama é como você acessa o amor.

 

Não podemos sinceramente amar o outro ou perdoar suas ofensas tendo uma consciência dualista. Experimente e verá que não pode ser feito. Muitos pastores e sacerdotes fizeram um grande desserviço ao povo de Deus pregando o Evangelho sem lhes dar as ferramentas pelas quais eles podem obedecer a esse Evangelho. Como Jesus disse, “cortada da videira, nada podeis fazer” (João 15: 5). A “videira e os ramos” oferecem uma das maiores imagens místicas cristãs da não-dualidade entre Deus e a alma. Sendo um com Deus, posso amar tudo e todos - até meus inimigos. Sozinho e por minha conta, minha força de vontade e meu intelecto raramente serão capazes de amar em situações difíceis ao longo do tempo. Muitas pessoas tentam amar pela força de vontade, tendo elas mesmas como a única fonte. Elas tentam obedecer ao segundo mandamento sem seguir o primeiro. Isso, geralmente, não funciona a longo prazo, e não há ninguém mais cínico sobre o amor do que um idealista desiludido. (Esta foi a minha própria geração juvenil da década de 1960).

Finalmente, é claro, há uma linha reta entre amor e sofrimento. Se amamos profundamente alguém ou alguma coisa, é quase certo que logo sofreremos porque desistimos do controle para o outro, e o preço da auto extensão logo se mostrará. Sem dúvida, é por isso que nos dizem para sermos fiéis em nossos amores, porque essa lealdade, a longo prazo, e o amor verdadeiramente consciente sempre nos conduzirão à poda necessária (João 15,2) do eu narcísico.

Até que amemos e soframos, todos nós tentaremos descobrir a vida e a morte com nossas mentes; mas depois uma Fonte Maior se abrirá dentro de nós levando-nos a “pensar” e sentir bem diferentemente: “até conhecer o Amor, que está além de todo conhecimento” (Efésios 3,19). Assim, Jesus naturalmente diria algo como: “Este é o meu mandamento: vocês devem se amar um ao outro!” (João 13,34). O amor autêntico (que é sempre mais do que uma sensação de coração) inicialmente abre a porta da consciência e da vivacidade, e então o sofrimento por esse amor mantém essa porta aberta para a mente, o corpo e a vontade de entrar. Eu suspeito que para a maioria de nós esse é o trabalho de uma vida.

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[1] Texto elaborado por Richard Rohr, na sequência de reflexões sobre “Amor Consciente”, e disponibilizado em sua Meditação Diária no site do Centro para Ação e Contemplação.

[2] John Welwood, Love and Awakening: Discovering the Sacred Path of Intimate Relationship (HarperPerennial: 1996), xiii. Adaptado por Richard Rohr: Essential Teachings on Love, eds. Joelle Chase and Judy Traeger (Orbis Books: 2018), 206-207.

Diversidade, Essência e Comunhão

 

Sexta-feira, 7 de junho de 2019

9.6.2019

Todos nós que vivemos, respiramos e caminhamos sobre esta maravilhosa e santa Mãe Terra somos chamados a compreender os princípios cósmicos inerentes à dinâmica energética interdependente que atravessa todos os elementos da vida. Nada existe sem essas três energias interdependentes que emergiram da primeira explosão há 13,8 bilhões de anos: diferenciação ou diversidade; subjetividade, interioridade ou essência; e comunhão ou comunidade e interconectividade. Essas energias oferecem lições vitais para os momentos críticos em que vivemos, onde a diversidade causa conflitos, a vida é muitas vezes superficial e o individualismo desenfreado.[1]

 

Primeiro, cada um de nós - todo ser humano, cada gota de água, cada molécula, cada ave, cada grão de areia e cada montanha - é distinto ou diferente. Cada um é uma manifestação distinta da energia do Amor Divino. O universo prospera e não pode existir sem a diversidade. As diferenças que evitamos, evitamos ou mesmo destruímos são necessárias para que a vida continue em uma infinidade de formas magníficas. (...)

 

O segundo princípio cósmico, interioridade ou essência, é mais facilmente entendido por pessoas de todas as tradições religiosas. Toda coisa criada é santa. Cada folha de grama, gafanhoto, criança e elemento é sagrada. A degradação ecológica, o racismo, a discriminação, o ódio e o desinteresse em trabalhar pela justiça e pelo amor falam, cada um, com a falta de honrar a interioridade daquilo que está diante de mim. (...). Para ajudar as pessoas a se ajustarem e lidarem com a mudança climática, preocupação mais crítica de nossos dias, acredito que devemos entrar em contato com a essência sagrada de tudo o que existe.

 

O terceiro princípio cósmico, comunhão ou comunidade, está intimamente ligado à diferenciação / diversidade e interioridade / essência. Uma citação atribuída a Thich Nhat Hanh afirma bem: “Estamos aqui para despertar da ilusão de nossa separação”.[2] A atração gravitacional do amor atrai todos e tudo para o relacionamento e a comunhão. (...)

Talvez, como Beatrice Bruteau escreveu: “Se não podemos amar nosso próximo como a nós mesmos, é porque não percebemos nosso próximo como a nós mesmos”.[3] Se não formos capazes de ver que estamos em comunhão com outro, não percebemos que o que fazemos para nós mesmos, fazemos para o outro e para a terra. Da mesma forma, não percebemos que, em última análise, nossa falta de compreensão volta-se para nós na violência, seja medo de outras raças e diversidade, ou destruição da Terra, porque vemos o mundo natural como um objeto e não um sujeito com interioridade. (...)

Somos chamados a sermos maiores do que podemos imaginar que somos neste momento. Os princípios cósmicos são uma nova maneira de compreender, ver e agir em um mundo que parece estar dilacerado por uma compreensão errônea da beleza da diversidade, da santidade da essência e da atração evolucionária da comunhão.

 

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[1] O padre e ecologista passionista Thomas Berry (1914–2009) e o cosmólogo evolucionista Brian Swimme escreveram sobre esses princípios em seu livro The Universe Story (Harper Collins: 1994, © 1992). Seu trabalho se baseia nas investigações cosmológicas do paleontólogo e padre jesuíta Pierre Teilhard de Chardin (1881–1955), que também foram exploradas pela escritora e mística Beatrice Bruteau (1930–2014)

[2] Beatrice Bruteau, The Holy Thursday Revolution (Orbis: 2005), 6.

 

[3] O ensinamento de Thich Nhat Hanh compartilhado por Wendy Johnson, “Uma Sangha Flutuante Assume: Primeiros Dias em Plum Village com Thich Nhat Hanh”, Tricycle: The Buddhist Review, vol. 24, não. 3 (primavera de 2015). Veja https://tricycle.org/ magazine/floating-sangha-takes-root/.

 

2.6.2019

Teologia e sua relação com a ciência

Vinícius Carvalho da Silva

A investigação teológica se fundamenta em um pressuposto irredutível: a existência objetiva de Deus como realidade fundamental e causal do mundo. Deus é! A natureza de Deus, seu poder de criação, suas propriedades e atributos, e o modo como interage com a coisa criada são objetos da Teologia. Nesse sentido, portanto, como afirma Libânio, a Teologia se ocupa de problemas universais, sendo ela mesma universal, uma vez que não somente as questões que levanta como também as respostas que oferece buscam a compreensão do todo, e não das partes (...)

O conhecimento da existência de Deus, portanto, não seria o resultado da teologia, mas seu fundamento. Por isso, não chegamos à existência de Deus por dedução, indução, tampouco por abdução,24 mas por assunção. Entretanto, isso não torna a teologia menos científica ou crítica.

21.4.2019

A PÁSCOA EM CADA UM DE NÓS

 

Ao longo do Período Pascoal, fomos convidados para refletirmos juntos sobre tão importante período litúrgico que não nos remete, apenas, à lembrança de um ocorrido histórico, mas nos convida a vivermos, neste período e em nosso di-a-dia, a evolução possibilitada pela presença viva de Deus em cada um de nós.

Muitos comemoram esse período como forma de recordar a passagem de Jesus por nosso meio humano, outros, sustentados nos aspectos teológicos da remissão dos pecados, recolhem-se em profundos agradecimentos a Deus pela oportunidade de um recomeço. Porém, há um outro aspecto, fundamental e universalmente possível de ser refletido e trabalhado, independente da tradição religiosa, que é a oportunidade do renascer.

14.4.2019

SIMBOLOGIA E LITURGIA

 

A simbologia tem sido, nos últimos anos, uma constante preocupação da liturgia. Muitos são os estudos, debates e reflexões que envolvem a celebração litúrgica, no que tange a questão dos símbolos, gestos e ações simbólicas. A busca de uma expressão simbólica mais autêntica tem ocupado muitos liturgistas em seus estudos das práticas celebrativas. (...)

 

Apresentamos nesta semana um interessante artigo do Pe. Izidoro Bigolin, membro da Igreja Católica Apostólica Romana, atuando na Diocese do Rio Grande do Sul. Seu artigo aborda a simbologia na liturgia, aspecto bastante relevante para qualquer igreja litúrgica.

31.3.2019

DA SOBRIEDADE NA ORAÇÃO

 

Que o tecido da tua oração só tenha uma cor. O publicano e o filho pródigo foram reconciliados com Deus com uma só palavra. Quando rezas, não procures palavras complicadas, porque o balbuciar simples das crianças tem muitas vezes tocado o seu Pai dos Céus. Não procures falar muito quando rezas, não vá o teu espírito distrair-se à procura das palavras. Uma só palavra do publicano apaziguou a Deus e um só brado de fé salvou o ladrão. Não raro, a loquacidade na oração dispersa o espírito e enche-o de imagens, ao passo que a repetição da mesma palavra serve para o recolher. Se uma palavra da tua oração te enche de suavidade ou de compunção, permanece nela, porque o teu anjo da guarda está aí, rezando contigo.

Pede com aflição, procura com a obediência, bate com paciência. Porque aquele que assim pede, recebe; aquele que procura, encontra; e àquele que bate, abrir-se-á.

Quem ergue sem descanso o bastão da oração não vacilará. E, mesmo que caia, a sua queda não será definitiva. Porque a oração é uma tirania piedosa que é exercida sobre Deus.

São João Clímaco (c. 575-c. 650), monge do Monte Sinai 

24.3.2019

“TALVEZ VENHA A DAR FRUTOS NO FUTURO”:

IMITAR A PACIÊNCIA DE DEUS

 

Irmãos bem-amados, Jesus Cristo, Nosso Senhor e Deus, não Se contentou em ensinar a paciência por palavras; também a demonstrou com os seus atos. [...] Na hora da Paixão e da cruz, quantos sarcasmos ultrajantes escutados com paciência, quanta troça injuriosa suportada, a ponto de ser cuspido, Ele que, com a sua própria saliva, tinha aberto os olhos a um cego (Jo 9,6) [...]; viu-Se coroado de espinhos, Ele que coroa os mártires com flores eternas; bateram-Lhe na face com as palmas das mãos, a Ele que concede palmas verdadeiras aos vencedores; foi despojado das suas vestes, Ele que reveste os outros de imortalidade; foi alimentado com fel, Ele que dá o alimento celeste; foi dessedentado com vinagre, Ele que dá a beber o cálice da salvação. Ele, o inocente, Ele, o justo, ou antes, Ele, que é a própria inocência e a justiça, foi contado entre os malfeitores; falsos testemunhos esmagaram a Verdade; Aquele que deverá ser o juiz foi submetido a julgamento; a Palavra de Deus foi conduzida ao sacrifício, calando-Se. A seguir, quando os astros se eclipsaram, quando os elementos se perturbaram, quando a terra tremeu, [...] Ele não falou, não Se mexeu, não revelou a sua majestade. Tudo suportou até ao fim com constância inesgotável, para que a paciência completa e perfeita tivesse o seu auge em Cristo. 

E, depois de tudo isto, acolherá os seus carrascos, se se converterem e se se voltarem para Ele: graças à sua paciência [...], não fecha a sua Igreja a ninguém. Aos adversários e aos blasfemos, eternos inimigos do seu nome, não apenas lhes concede o perdão, se se arrependerem das suas faltas, mas recompensa-os com o Reino dos Céus. Seria possível indicar alguém mais paciente, mais benevolente? A mesma pessoa que derramou o sangue de Cristo é vivificada pelo sangue de Cristo. Tal é a paciência de Cristo, e se não fosse tão grande, a Igreja não teria o Apóstolo Paulo.

 

São Cipriano (c. 200-258), bispo de Cartago e mártir. 

17.3.2019

DEUS ENCARNADO

 

Max Lucado, pastor da igreja Oak Hills, em San Antonio, Texas, EUA, renomado escritor e autor de mais de 70 títulos, apresenta-nos, no capítulo Deus Encarnado, de sua obra Um Presente Para Todos, um Jesus humano, inteiramente doado para a humanidade, para cada um de nós. Fez-se homem, com eu e você, e aqui não nos limitamos à questão de gênero, mas sim à espécie. Veio como ser humano, como um exemplar da criação divina. Veio para ser ouvido, visto e seguido. Como Lucado nos lembra, Jesus recusou-se "a ser uma estátua numa catedral ou sacerdote num púlpito elevado. Preferiu, em vez disso, ser um Jesus acessível, do qual era possível aproximar-se e tocar".

Encarnou-se e revelou-se como humano, demonstrando sentimentos humanos, permitindo, com isso, ser acessível por todos, procurado por muitos, compreendido por vários e, até mesmo, rejeitado e odiado por tantos outros.

 

Possibilitou que as pessoas Dele se aproximassem, que O tocassem. Assim, muito bem destacado pelo autor, "Não há qualquer insinuação sobre alguém que temesse chegar até Ele(...) Não houve ninguém que relutasse em chegar a ele com medo da rejeição." 

24.2.2019

OS QUATRO PASSOS DA LECTIO DIVINA

 

A tradicional leitura orante da Bíblia (lectio divina) possui quatro passos fundamentais, que são: 1) a leitura (lectio); 2) a meditação (meditatio); 3) a oração (oratio); e 4) a contemplação (contemplatio). Seguindo estes passos, é como se estivéssemos subindo uma escada espiritual, usada pelos monges desde o século III, em direção a Deus, por meio das Sagradas Escrituras. A lectio divina, originalmente uma oração monástica, popularizou-se e é indicada a todos nós orantes que desejamos e buscamos, parafraseando Santo Agostinho, um “diálogo entre Deus e o homem; porque ‘a Ele falamos, quando rezamos, a Ele ouvimos, quando lemos os divinos oráculos’”.

1- Leitura (lectio).

Leia o texto 1, 2, e até 3 vezes. Devemos ler e reler o texto sagrado para perceber os elementos importantes. A tarefa é muito fácil: prestar atenção aos verbos, aos sujeitos, aos sentimentos, às qualidades da ação, aos fatos consequentes. Todos nós podemos fazer Lectio Divina porque não é a exegese propriamente dita. Nunca abra ao acaso a Palavra de Deus. Esta merece ser comida por inteiro, não beliscada. Siga o ciclo do ano litúrgico, as leituras que a igreja nos oferece, mesmo que seja um texto difícil. Caso contrário cairemos no subjetivismo, escolhendo textos que preferimos. Leia o texto. Se estiver sozinho, pode até escrever o texto. Copie, cole e imprima em seu coração. A Bíblia de Jerusalém é de grande importância pelos seus textos paralelos. A Escritura interpretando a Escritura. No nosso caso, quando ela é comunitária é bom que tenhamos várias traduções.

2 . Meditação (meditatio).

O que significa? Repetir cada palavra cada versículo. Para os primeiros monges meditar era repetir os textos bíblicos aprendidos de cor. Os monges de São Pacômio praticavam a meditação, a repetição da Escritura enquanto caminhavam de um lugar para o outro: entre a igreja e o refeitório ou aos lugares de trabalho. Eles tinham isso na mente: a Palavra de Deus devia estar na boca, em todo lugar e em todo tempo. São Bento era tão preocupado com a Lectio que não deixava ninguém “abrir mão” desse grande valor. Chegava a designar “1 ou 2 dos anciãos para circular o mosteiro e ver se não havia por acaso um irmão tomado de acédia (preguiça) que se entregava ao ócio ou as conversas e não estava aplicado à leitura e não somente era inútil a si próprio como também distraia os outros”.

Neste segundo passo retomamos o texto versículo por versículo, palavra por palavra. Não sair do texto. Aqui, para não cair no psicologismo, pense em Deus e não em você mesmo. Em vez de pensar em você, admire profundamente aquele que está falando em seu coração. É o momento de reconhecer as maravilhas que Deus fez por nós. Meditação é ruminação é mastigar o texto, saboreá-lo.

3. Oração (oratio).

Agora fale com Deus. Responda aos apelos de Deus. Deixe se transformar pela Palavra de Deus. Deixe seu coração celebrar Aquele que é o amor. Neste passo ficamos mais no pedido e pedimos perdão também. Aqui entra a escuta. Posso rezar com a oração do outro, da outra e até complementá-la. Das orações pode brotar certos refrões inspirados na hora. Este passo termina com o louvor. Temos muito a agradecer ao Senhor sempre respeitando o texto.

4. Contemplação

Aqui o cansaço da busca é recompensado. É mais que ver a Deus, é um estado de união com Ele. É um ir além da letra. S. Bento nos diz na Regra que devemos ver todas as pessoas como o próprio Cristo. Começar a ver o mundo com o olhos dos pobres, com os olhos de Deus. Trazemos o mundo para a nossa oração. Posso ser contemplativo no meio de uma multidão, dizia Madre Belém (contemplativa de Sion).

 

<https://jclectiodivina.wordpress.com/2013/09/05/os-4-passos-da-lectio-divina/>

17.2.2019

CRER EM JESUS CRISTO HOJE

Manuel Hurtado, SJ.

 

Que significa crer em Jesus Cristo hoje? Sua vida, sua pessoa e seu estilo de viver ainda nos dizem alguma coisa? A mais de dois mil anos das primeiras comunidades que com Ele viveram, somos instigados a interrogar nossa fé em Jesus Cristo. É esta interrogação que nos permitirá entrar no âmago do sentido do crer em Jesus Cristo hoje. Não se trata simplesmente de dar uma resposta conhecida, pronta, como a de muitos catecismos e livros de formação que circulam em nossas paróquias. Tampouco se trata de dar uma resposta que busque um recuo identitário e excludente, pouco dialógico, ao qual estão tentados alguns grupos cristãos contemporâneos. Torna-se necessária uma resposta mais de cunho pessoal e experiencial, uma resposta que transpasse nossas entranhas crentes. Uma resposta crente sim, mas que não ignore a contribuição das pesquisas históricas realizadas sobre Jesus, sobretudo durante o século passado e inícios deste. É necessário voltar ao elementar da fé e da vida cristã.

10.2.2019

RETORNO À HUMILDADE

Publicado em 23 de janeiro de 2014, por Gabriel de Santa Maria

 

O primeiro dos seis princípios beneditinos sobre a humildade é que Deus não é um objetivo a ser alcançado, mas sim uma presença que deve ser sentida. O primeiro grau de humildade - diz a Regra - é que "tenhamos sempre diante dos olhos o temor de Deus e nunca o esqueçamos". Já o segundo grau exorta-nos a não amarmos nossa própria vontade, entendendo que a vontade de Deus é o que há de melhor para nós. Deixemos Deus ser Deus - ensina a Regra.

Livre tradução do texto original em espanhol disponível em: <https://lahesiquia.wordpress. com/2014/01/23/retorno-a-la-humildad/>.

3.2.2019

A CONFISSÃO DE FÉ CONFORME PAULO E MARCOS:

UMA APROXIMAÇÃO A PARTIR DE 1COR 12,1-3

Marcus Aurélio Alves Mareano

 

Em 1 Cor 12, 3 lemos: “Ninguém pode dizer: 'Jesus Cristo é o Senhor' a não ser pelo Espírito Santo”. Logo, para Paulo, a confissão de fé é movida pelo Espírito Santo. Marcos, possível discípulo dePaulo, apresenta no seu evangelho uma narrativa que culmina com a confissão do centurião: “Verdadeiramente este homem era Filho deDeus!” (Mc 15, 39). Então, analisaremos a perícope de 1 Cor 12, 1-3 com alguns paralelos no Corpus Paulinum que confirmam a confissão de fé é movida pelo Espírito Santo, abordando, em seguida, como aparece em essa temática em Marcos, a fim de perceber as semelhanças e diferenças entre Paulo e Marcos.

27.1.2019

A hipocrisia humana

Minhas queridas amigas, meus queridos amigos:

 

Ao mesmo tempo que vemos movimentos internacionais com vistas à democratização das sociedades, à proteção de seus compatriotas, especialmente de ataques chamados de terroristas e às “invasões” de refugiados, à busca do desenvolvimento tecnológico, à ampliação da riqueza, o que vem levando muito mais ao enriquecimento de pessoas e grupos específicos e não à distribuição da renda aos menos favorecidos, enfim à busca da chamada “melhores condições de vida” à coletividade, deparamo-nos, de fato, com uma grande mortandade dos miseráveis, ao agravamento do empobrecimento humano e a queda ao grupo de empobrecido daqueles que, numa luta inglória, tentavam manter-se em patamares minimamente dignos de sobrevivência.

Disponibilizo este texto e convido a todas e todos para que, juntos, possamos refletir a respeito, especialmente sobe o nosso papel no contexto apresentado.

20.1.2019

Que todos nós tenhamos paz em 2019!

Minhas queridas amigas, meus queridos amigos:

 

Estamos acostumados a desejar a paz às pessoas do nosso meio, em especial nos atos e momentos festivos, como em celebrações religiosas, em dias voltados à paz do mundo, até mesmo no cumprimento entre pessoas de certas culturas.

 

Muitos promovem movimentos sócio-políticos, ou deles participam, voltados à paz mundial, especialmente entre povos em conflitos, ou mesmo na busca da aceitação das diferenças entre pessoas, ou para o acolhimento das minorias. Sem dúvida alguma, são causas importantes e merecem ser defendidas.

Entretanto, que paz é essa que buscamos e, por ela, muitos se mobilizam incansavelmente?

Um carinhoso beijo no coração de todas e todos vocês!

 

Que todos tenhamos um 2019 repleto de amor, harmonia e muita paz!

 

Fiquem com Deus!

 

Rev. Frei João Milton - Prior da Fraternidade Monástica Anglicana 

Entre em contato conosco - mongesanglicanos@gmail.com

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