A Espiritualidade Beneditina

E, buscando o Senhor o seu operário na multidão a quem faz ouvir o seu clamor, diz ainda: “Qual é o homem que quer a vida e deseja ver dias felizes?” (Sl 33,13). Se a essas palavras responderes “Sou eu”, Deus te dirá então: “Se queres ter a vida verdadeira e eterna, preserva a tua língua do mal e não profiram os teus lábios palavras enganadoras, afasta-te do mal e faze o bem; procura a paz e segue-a. Quando tiverdes feito essas coisas, meus olhos porei em vós e os meus ouvidos estarão atentos às vossas preces, e antes que me invoques, direi: ‘Eis-me aqui’” (Sl 33,14-16). Que haverá de mais doce para nós, caríssimos irmãos, do que esta voz do Senhor a convidar-nos? Eis que na sua bondade o próprio Senhor nos aponta o caminho da vida.

(Regra de São Bento, Prólogo 14-20)

A espiritualidade beneditina é prática e profunda, jamais devendo ser vista como uma espiritualidade de fuga. Ela preenche tempo e espaço com a consciência da presença de Deus, não preferindo nada ao amor de Cristo. Ela estimula a alegre aceitação da benção da obediência, com a prática da caridade fraterna e da humildade, buscando a contínua progressão, a conversão da vida e a autêntica perfeição religiosa.

Escuta…”, um típico verbo bíblico, encontrado logo no início do Prólogo da Regra de São Bento (“Ausculta, o filli, ...”), representa uma porta que se abre, num persuasivo convite para a introdução na “escola da mansidão”. “Escuta, filho, …”, trata-se de um filho que deve oferecer a atenta e sedenta escuta, para aprender a viver como verdadeiro filho. Deve inclinar o “ouvido do coração”, abrindo-se ao amor do Pai, sem timidez, sem limites, sem reservas.

Como tão bem é explicitado pela Abadessa Anna Maria Cànopi, OSB: “Jesus Cristo, a divina mansidão encarnada, é o livro de texto, jamais superado pelo progresso da ciência humana, do qual nós devemos aprender a ciência da vida.” Ele se fez manso e humilde de coração para acalmar os rebeldes, deixando-nos esse convite ecoando ao longo dos séculos. Ele mesmo nos declara: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve.” (Mt 11, 28-30).

Assim, um discípulo de São Bento é uma alma humilde, obediente e que sabe escutar Deus no fundo do seu coração no cultivo do silêncio. Podemos estudar as características da espiritualidade beneditina orando com a Santa Regra.

A Regra de São Bento tem sido muitas vezes referida como um compêndio do Santo Evangelho de Jesus Cristo.

A espiritualidade beneditina traz-nos o dom da Paz como a principal característica de alguém que trilha sua vida almejando chegar a Deus. Muito mais do que no interior dos mosteiros,  a Paz deve ser cultivada no interior de cada pessoa, com vistas à percepção e transmissão do próprio Cristo vivo de modo que todos sintam a presença de Deus e O glorifique.

Um dos aspectos que assusta, num primeiro momento, aqueles que se deparam com a espiritualidade beneditina é sua austeridades, sua disciplina. Porém, tal sobressalto é decorrente, em grande parte, da dificuldade de se despojar dos costumes do mundo, das ilusões que encantam os seres em seu cotidiano mundano. À medida que se avança no caminho da perfeição proposto por São Bento, esse aparente fardo transforma-se, cada vez mais, em alegre liberdade.

Como tão bem nos lembra Thomas Merton, sentir-se livre e espontâneo na vida é fundamental, mas isso somente ocorre quando, de fato, conhecemos a nós mesmos, no que se refere ao que somos e ao que temos a oferecer e que, tal oferta, seja válida para a construção de um mundo melhor. Precisamos, por tanto, conhecer e ser, de fato, quem essencialmente somos, para continuarmos uma relação viva e frutífera com o próximo, exercendo nossa plena liberdade de vivenciarmos nossa verdadeira essência, fugindo, assim, da falta de sentido, da obsessão, da futilidade e das mentiras consolidadas pelas relações sociais superficiais. Assim, para sermos verdadeiramente livres, precisamos, antes de tudo, encontrarmo-nos, reconhecermo-nos, não nas aparências ou nas formas, mas na essência. Porém, o nosso verdadeiro encontro interior dá-se pela relação com a nossa verdade, despojada de tudo que o mundo deseja que sejamos, de tudo que nos direciona às formas de aceitação social, de tudo que foi sendo acrescido, ao longo do tempo, pelos outros e por nós mesmos, para que tivéssemos uma posição de destaque no mundo que nos cerca. Tal encontro, porém, não corresponde a um aprendizado racional, intelectual, mas sim a descoberta de nosso eu interior que se dá com a morte do eu das formas, constituído por todas as relações e solicitações sociais supérfluas. É o encontro com a nossa verdadeira identidade, o nosso verdadeiro “eu”, é a íntima relação com o Criador, por intermédio do verdadeiro encontro com a sua criatura, pois, nas profundezas do ser, é que Ele se faz reconhecer. Somente nessa condição que poderá haver a real fusão entre Criador e criatura, entre Deus e homem.

Outro ponto de destaque na espiritualidade beneditina é a dedicação à oração, na busca não apenas de se fazer oração mas de se permanecer em oração, do viver orante. A oração beneditina tem várias características que fazem mais para uma espiritualidade de consciência do que de consolação. É regular, conversor, reflexivo e comunal. A partir dessas qualidades, surge uma nova vida. A oração se é vivida para que possamos ver a vida como Deus a vê, é para compreendê-la e melhorá-la. Para o verdadeiro contemplativo, tudo é Deus, tudo é oração. A única maneira de orar é orar e a maneira de orar bem é rezar muito.

Cabe o foco nos três pilares de sustentação da espiritualidade beneditina, como destaca a Professor Fabiana Dantas: a humildade, a obediência e o silêncio. "Pela humildade se obtém o favor de Deus e o progresso no caminho da salvação; pela obediência se reconhece o senhorio de Jesus e a vontade de Deus impressa nos seus superiores que são seus representantes e pelo silêncio é possível contemplar Deus, estar disponível e mais atento ao apelo do Espírito Santo no fundo da nossa alma."

O silêncio ou a restrição da fala opera em muitos níveis e é um ato de disciplina própria da arte espiritual. Requer um estado de tranqüilidade que possibilite uma maior atenção às realidades não sensíveis do mundo espiritual. 

O mais interessante da espiritualidade beneditina, é que o modelo por ela apresentada é acessível a qualquer pessoa, desde que se sinta chamada à profunda comunhão com o Cristo. Não é algo restrito somente ao universo religioso tradicional, até porque todos são também chamados a ser, cotidianamente, religiosos no mundo.

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