A Formação Monástica

O monaquismo não pode ser um fenômeno meramente humano e sociológico. Nos corações dos monges existe uma chama que os queima interiormente e que só Deus pode acender. Por este motivo esses homens e mulheres até mesmo inconscientemente se tornam testemunhas vivas do Absoluto. (Dom Abade Joaquim Zamith , OSB)

      Uma pessoa não passa sua vida como se fosse um processo constante e uniforme, pois segue por experiências únicas que se sucedem formando um conjunto em permanente transformação. Assim sendo, faz-se necessário que cada um busque e construa a razão, a lógica e os afazerem que se estabelecem em seu caminhar, ou seja, a contínua busca de sua verdadeira e necessária atitude diante de cada momento, evitando, desta forma, um viver inconsequente e irresponsável, aprisionado nas aparências supérfluas da vida mundana.

    Para tanto, sua formação requer um processo lento, progressivo e permanente, não envolvendo apenas a construção de novos conhecimentos, de algo meramente cognitivo, mas, acima de tudo, do próprio ser espiritual, sua postura, sua vivência, sua presença e seu exemplo no mundo. O religioso precisa sê-lo, continuamente, por intermédio de seus atos e não apenas de suas palavras.   

    Aqueles que buscam uma experiência monástica, em decorrência de um chamado específico, almejando confessar a sua Fé em Cristo e pertencendo a uma comunidade monástica, somente poderá ter o início de sua formação caso haja uma verdadeira descoberta e renovada adesão a Jesus Cristo. Em que pese sua frequência, temos de combater o equívoco de se confundir algumas práticas, vestimentas e posturas específicas com a veracidade de uma vida monástica. Esta, como verdadeiro e radical seguimento de Cristo, exige uma atitude de autêntica e profunda descoberta daquele único tesouro do qual nos fala a Parábola de Jesus, que uma vez encontrado leva imediatamente a pessoa, na alegria de sua descoberta, a estar disposta a despojar-se de  tudo o que possui para poder adquiri-lo. Representa a procurar progressiva e permanente de incorporação em Cristo, através do desapego de tudo o que dele possa separar.

       Segundo São Gregório, o monaquismo é, antes de tudo, uma graça de Deus, uma vocação no sentido mais pleno da palavra e que nos faz compreender o que a muitos não foi dado. Para ele, a vocação monástica envolve o chamado da graça e a nossa resposta a ele, através do verdadeiro arrependimento e desapego dos bens terrenos, não se podendo deixar de destacar as inúmeras vezes que ele se refere à vocação monástica acentuando o seu aspecto sobrenatural o qual por ele é chamado de “conversationis gratia” ou “divina inspiratio”.

      Todos nós somos chamados a participar da construção do Reino, ou seja, Deus nos chama a servi-Lo através de algum caminho, quer seja pela vida leiga ou religiosa. Não podemos nos esquecer, no entanto, de que todos esses caminhos estão voltados ao serviço, jamais devendo ser identificados e almejados para o prazer ou interesse pessoais de quem o exerce. Dessa forma, a formação monástica, contínua e progressiva, não busca o acréscimo de informações, tampouco de conhecimento, mas sim a eliminação de tudo o que nos separa do Altíssimo, de tudo que obstrui a condução de nossa vida pelo Santo Espírito. Não é uma formação que acrescenta, mas limpa, esclarece, desobstrui.

     Quando se apresenta a importância e as possibilidades para a formação desse processo, evidencia-se sua dificuldade e sua contínua necessidades. O ser humano, nos dias de hoje, não excluindo aqueles de vida religiosa, vive imerso em problemas, questionamentos, cobranças, dúvidas e atrativos relacionados à grande diversidade de situações sociais e culturais. Tal fato, por muitas ocasiões, mais se assemelha a um bosque hostil que se depara, cotidianamente, ao longo da caminhada da vida. O peso de uma vida verdadeiramente cristã, associada à responsabilidade de se levar a Verdade ao próximo, de forma apostólica, vivencial e exemplar, às vezes, parece demasiadamente pesado e, em muitos momentos, infrutífero. É fundamental que haja uma preparação permanente para tal desafio, indo muito além das tradicionais disciplinas teológicas.

       Além do estudo permanente, em busca da formação intelectual necessária, o fortalecimento da fé e a certeza da presença viva de Deus em seu coração são aspectos fundamentais na vida de um sacerdote. Ninguém estará plenamente preparado para o exercício do sacerdócio, requerendo, enquanto vivo estiver, o esforço contínuo para tanto, vinculando sempre tal processo formador à entrega de seus dons à obra do Senhor – “sentir para conhecer, crer para aprender”.

      Assim, podemos dizer que a formação religiosa, além da construção formal do conhecimento, deve, acima de tudo, propiciar um verdadeiro esvaziamento de si mesmo, para que Deus possa assumir a totalidade do ser.

      Pelo exposto, após a certeza da vocação, a formação religiosa não deve se limitar a uma construção meramente intelectual, dirigindo-se, acima de tudo, ao crescimento e à santificação do ser, possibilitando a manifestação exemplar das verdadeiras atitudes cristãs nos relacionamentos de cada dia. Dessa forma, a visão de “mundo” e o sentimento da vida se ampliam, associando-se a fé vivida e alimentada pela oração e formação permanente, deixando transparecer a grande ligação que deve existir entre a Fé e a Vida. Assim, fica claro que o grande objetivo da formação religiosa não é formar “profissionais do sagrado”, mas sim homens e mulheres aptos a seguirem Cristo Jesus na construção permanente do Reino.

 

      Os temas sobre os quais são refletidos no processo formativo, que seja para o acesso à comunidade monástica e mesmo ao longo da vida monástica, são levantados, discutidos e trabalhados sob a supervisão do Prior ou por alguém por ele designado. O estudo detalhado da Sagrada Escritura, sempre sob o ponto de vista revelacional, estará sempre presente na formação permanente da comunidade monástica da Fraternidade.

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