A Vocação Monástica

Meu Deus, tranca-me na Tua Vontade, prende-me no Teu Amor e na Tua Sabedoria, atraí-me para Ti mesmo. Nunca farei coisa alguma quando a razão mais forte para fazê-la for somente minha própria satisfação. Eu desejo Tua Vontade e Teu Amor. Eu me entrego cegamente a Ti. Confio em Ti. (...) Quero permanecer próximo de Ti, qualquer que seja a escuridão, quaisquer que sejam meus temores. Conduze-me para fazer todas as coisas no Teu próprio tempo e do Teu próprio modo. (Thomas Merton)

Toda pessoa é propensa a uma profissão ou a um conjunto homogêneo delas, dependendo de suas pendências, tanto no que se refere à personalidade, quanto às aptidões cognitivas, chegando muitas delas a sentir a que está predestinado, bem antes de iniciar sua formação. Ocorre, porém, em alguns casos, aquele senso que direciona a outros caminhos que não seculares, tais como a busca pela vida religiosa.

Todos nós somos chamados a participar da construção do Reino, ou seja, Deus nos chama a servi-Lo através de algum caminho, quer seja pela vida leiga ou religiosa. Não podemos nos esquecer, no entanto, de que todos esses caminhos estão voltados ao serviço, jamais devendo ser identificados e almejados para o prazer ou interesse pessoais de quem o exerce.

 

Lembremo-nos da carta de São Paulo aos coríntios, quando aponta à importância de cada membro de um corpo, no caso, o corpo místico de Cristo:

Porque, como o corpo é um todo tendo muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo. Em um só Espírito fomos batizados todos nós, para formar um só corpo, judeus ou gregos, escravos ou livres; e todos fomos impregnados do mesmo Espírito. Assim o corpo não consiste em um só membro, mas em muitos. Se o pé dissesse: Eu não sou a mão; por isso, não sou do corpo, acaso deixaria ele de ser do corpo? E se a orelha dissesse: Eu não sou o olho; por isso, não sou do corpo, deixaria ela de ser do corpo? Se o corpo todo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se fosse todo ouvido, onde estaria o olfato? Mas Deus dispôs no corpo cada um dos membros como lhe aprouve. Se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Há, pois, muitos membros, mas um só corpo. (1Cor 12,12-20)

 

Porém, devemos nos atentar não apenas para a importância de cada membro, mas também para a interdependência entre eles e a importância do amor ser o vínculo de tal relação, especificamente o amor de Cristo: “Se um membro sofre, todos os membros padecem com ele; e se um membro é tratado com carinho, todos os outros se congratulam por ele. Ora, vós sois o corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um dos seus membros.” (1Cor 12,26-27)

Ao sermos batizados, incorporamo-nos ao corpo de Cristo e, gradativamente, somos chamados para o desempenho de nossas funções específicas, de nossa missão na Igreja e no mundo. Deus distribui os dons em favor da edificação de todo o Corpo, chamando para a ordem alguns dentre os batizados para ministérios específicos.

Sabemos que o termo vocação é derivado do verbo no latim “vocare” que significa “chamar”. É uma tendência, uma inclinação ou habilidade apontando para o exercício de uma determinada atividade. Especificamente quando falamos em vocação religiosa, mais fortemente esse conceito de chamado se destaca, pois a vida religiosa não deve ser uma opção de escolha como as demais profissões, muito menos como  fator de exclusão ou por facilidade de acesso. Lembremo-nos de que não escolhemos tal prática, melhor dizendo, tal vida, mas sim, somos chamados para ela. Deus nos chama à vida na concepção, chama-nos à fé pelo batismo e nos chama para vivermos como seu discípulo missionário pela vida religiosa.

Jesus é quem convida aqueles que se sentem vocacionados a viver uma vida de exclusividade e continência por causa do Reino. A resposta do novo escolhido deve modelar-se na resposta de Jesus, pois segui-Lo, significa, essencialmente, renunciar a tudo por causa do Reino, comprometendo-se em espírito, corpo e alma.

Uma vida consagrada, totalmente a Deus, significa seguir Jesus Cristo, numa verdadeira mística que implica identificação com suas atitudes e compromissos, andando como Ele andou, vivendo como Ele viveu e pensando em Deus. Jesus Cristo é o protótipo da consagração do religioso a Deus. Quando o Pai chama alguém para receber a Unção e ser Enviado, não faz outra coisa, senão, repetir o que fez de forma exemplar com o seu próprio Filho.

A certeza que se busca ao se falar da vida religiosa “não é humana”, haja vista que não é a pessoa que a escolhe tal missão, mas sim, Deus que faz tal escolhe. Quando a “ouvimos”, compete-nos aceita-la ou não, mas repletos de um profundo sentimento de humildade, de agradecimento e de servidão, não cabendo orgulho, soberba ou vaidade, até porque tal chamado não é feito pelos méritos humanos, mas sim pela misericórdia de Deus. É por isso que se diz ser uma certeza na fé. Sem dúvida alguma, a vida religiosa é um dom da graça de Deus, que pode ser comparada a uma semente lançada em terreno fértil. Porém, para crescer, desabrochar e frutificar, faz-se necessário que seja cuidada com a bondade, o amor, o estudo e a oração, por aquele que, ao possuir um coração generoso, é capaz de acolhê-la e aceitá-la, movido basicamente pela fé.

Mesmo quando alguém acredita ter aptidão para viver a vida monástica, deve-se buscar o discernimento sobre a existência da verdadeira vocação para tal, pois ela requer, não apenas o desejo pessoal, tampouco a vontade de assim viver, mas acima de tudo, o verdadeiro chamado para tanto. Ser religioso não é uma profissão, mas uma forma de vida que representa a resposta ao chamado de Deus.

Todo indivíduo, especialmente o religioso, é chamado à santidade na totalidade do ser, porém empreender tal árdua tarefa requer descer com Deus no mais profundo do universo interior, conhecendo e reconhecendo as próprias misérias, mas também identificando a riqueza que o Pai, em seu “infinito amor”, deposita continuamente em cada ser, exige, acima de tudo, abertura de coração à ação da graça, que deseja fazer nascer em cada um o homem novo.

Deve-se ter sempre em mente que o verdadeiro cristão, especialmente (exemplarmente!!) o religioso, não é o que se diz ser, não é aquele que participa de celebrações específicas ou que tenha se submetido a rituais de passagem, mas sim a pessoa que segue as pegadas de Cristo, que vive Sua Palavra, que concretiza Sua fala, que mantém Sua presença viva por intermédio de seus atos, é aquele que, de fato, é seu discípulo, seu seguidor cotidianamente.

Essa escolha, esse chamado, ocorreu somente em decorrência do amor e da misericórdia de Deus, jamais pelo merecimento ou iniciativa humanas. Lembremo-nos das palavras de Paulo: “Porque já sabeis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, por amor de vós se fez pobre; para que pela sua pobreza enriquecêsseis.” (2Cor 8,9). Se o próprio Cristo Jesus esvaziou-se de sua glória fazendo-se homem para nos trazer a Verdade Divina, quanto mais aqueles por Ele escolhidos para levar a mesma verdade aos irmãos. Se Ele deu o exemplo de entrega, de desapego, de serviço, totalmente desprovido de vaidade e vanglória, quem somos nós para diferentemente agirmos por estarmos a serviço de Deus?

Tenhamos sempre em menta as palavras de Thomas Merton:

A vitória da humildade monástica é a vitória do real sobre o irreal – vitória em que ideais humanas falsos são postos de lado e o “ideal” divino é alcançado, experimentado, segurado e possuído, não numa imagem mental mas na realidade presente, concreta e existencial de nossa vida.

Pelo exposto, caso você sinta o chamado para viver, essencialmente, a vida religiosa, entre em contato conosco. Teremos muito prazer em desenvolver com você estudos e reflexões que buscarão a confirmação desse chamado e a formação permanente e continuada de uma vida monástica adequada ao seu perfil.

Entre em contato conosco - mongesanglicanos@gmail.com

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